No telejornal,
a apresentadora linda
- sempre sorridente.
A espera do boa-noite
apequena cataclismos.
Sem Cesura
Criação, crítica e outros cricrilares
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Para um amigo que não conhece Silvio Caldas
Eu fiz tanta serenata,
Andei cantando a minha fantasia.
Procurei amar alguém.
Se o destino não quis, devo me conformar
Andei cantando a minha fantasia.
Procurei amar alguém.
Se o destino não quis, devo me conformar
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Proezinhas XVII
Na calçada
- É pra pinga, moço!
Pedestre deixa moedas.
Prezava os honestos.
GPS na necrópole
Estava perdido:
- Não sei voltar para casa.
O coveiro em choque.
- É pra pinga, moço!
Pedestre deixa moedas.
Prezava os honestos.
GPS na necrópole
Estava perdido:
- Não sei voltar para casa.
O coveiro em choque.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Chet Baker
Essas coisas tolas
ditas da minha paixão
- risível paixão -
parecem falar
de noites silenciosas,
de emoções partidas,
do passar do tempo,
de como sou démodé,
de gente se amando.
Minha voz é sopro,
assovio delicado,
minha purgação.
"Tão fácil", dirias,
se tu me visses agora.
Mas não para mim.
ditas da minha paixão
- risível paixão -
parecem falar
de noites silenciosas,
de emoções partidas,
do passar do tempo,
de como sou démodé,
de gente se amando.
Minha voz é sopro,
assovio delicado,
minha purgação.
"Tão fácil", dirias,
se tu me visses agora.
Mas não para mim.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Frustração sob medida
Pretendeu criar
um meio soneto:
quarteto e terceto
- apenas um par.
A sua metade
mostrou-se, contudo,
menor do que meia.
um meio soneto:
quarteto e terceto
- apenas um par.
A sua metade
mostrou-se, contudo,
menor do que meia.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Leonard Cohen
para Cesare Rodrigues
I
Minha voz carrega
Todas as marcas e a dor
De quem viveu tanto.
II
Chamam-me pastor.
Dos rebanhos, entretanto,
Trago a solitude.
III
Queria cantar,
mas se perdem, amiúde,
notas ao destempo.
IV
Sobram-me somente
Gravidades e tristezas.
E tão pouco tempo.
V
Diante do fim,
a música se intimida
e se faz bramido.
I
Minha voz carrega
Todas as marcas e a dor
De quem viveu tanto.
II
Chamam-me pastor.
Dos rebanhos, entretanto,
Trago a solitude.
III
Queria cantar,
mas se perdem, amiúde,
notas ao destempo.
IV
Sobram-me somente
Gravidades e tristezas.
E tão pouco tempo.
V
Diante do fim,
a música se intimida
e se faz bramido.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Para um amigo que não conhece Dolores Duran
Há um adeus em cada gesto, em cada olhar,
para enfeitar a noite do meu bem.
para enfeitar a noite do meu bem.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Tanka da solidão nº5
No supermercado,
compra comida enlatada
para o feriado.
As embalagens são grandes,
mas não superam a fome.
compra comida enlatada
para o feriado.
As embalagens são grandes,
mas não superam a fome.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Proezinhas XVI
Ceia
A chuva desaba.
Motocicletas se guardam.
A janta não chega.
Separação
Pensam um no outro.
Durante dez anos, juntos.
Agora, distantes.
A chuva desaba.
Motocicletas se guardam.
A janta não chega.
Separação
Pensam um no outro.
Durante dez anos, juntos.
Agora, distantes.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Proezinhas XV
Conflito de interesses
Cruzou o sinal.
Era tarde, tinha pressa.
Acabou parado.
Pergunta sem resposta
- Estudar pra quê?
A professora calou.
A razão perdera.
Cruzou o sinal.
Era tarde, tinha pressa.
Acabou parado.
Pergunta sem resposta
- Estudar pra quê?
A professora calou.
A razão perdera.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Falsas sensações
O título original é Perfect Sense, mas a versão brasileira é Sentidos do Amor. Razões mercadológicas parecem indicar que o amor - qualquer que seja - tem mais apelo do que a perfeição.
O par principal é encarnado por bons atores, Eva Green e Ewan McGregor, e o argumento é até interessante. Mas a tradução do título não parece ser o único problema de linguagem enfrentado pela produção: por vezes a narrativa oscila entre o documentário, o videoclipe e a publicidade de ONGs.
Contudo, ou talvez por isso, críticas favoráveis têm sido constantes. Provavelmente todo o mérito e aceitação de Sentidos do Amor se devam a uma leitura otimista: toda dificuldade é superável; segue-se sempre em frente.
Michael (McGregor) é um chef e Susan (Green)uma epidemiologista. Conhecem-se quando uma estranha doença grassa pelo mundo. Como destacado no título, os sentidos são o cerne da moléstia. O primeiro grande sintoma é a perda do olfato.
Aparentemente, perde-se pouco. Reforça-se o uso dos outros sentidos. Em especial, o paladar.
Mas os habitantes do planeta vão a pouco e pouco se tornando mais deficientes. O que se passa, então, é o caminho de substituição, do desenvolvimento exacerbado dos sentidos restantes, do aprendizado pela perda.
O título oculta - e as críticas quase não fazem menção-, mas outra parte dos sintomas são as emoções. Entre um decréscimo e outro, os acometidos choram, riem, zangam-se.
Ou seja, destacam-se os sentidos, esquecem-se os sentimentos.
Mas um dos pontos cruciais na leitura do filme é o de que, como toda ficção científica, Sentidos do Amor é fatalista e propõe ensinamentos. Especificamente, parece retomar a ideia de que toda percepção é falsa, pois produzida pelas ilusões dos sentidos. Mas a escolha dos espectadores é levada para outro lado.
Desde o título, a versão brasileira capta a ideia de que a pretensão é a de que seja uma sensacional história do amor.
O par principal é encarnado por bons atores, Eva Green e Ewan McGregor, e o argumento é até interessante. Mas a tradução do título não parece ser o único problema de linguagem enfrentado pela produção: por vezes a narrativa oscila entre o documentário, o videoclipe e a publicidade de ONGs.
Contudo, ou talvez por isso, críticas favoráveis têm sido constantes. Provavelmente todo o mérito e aceitação de Sentidos do Amor se devam a uma leitura otimista: toda dificuldade é superável; segue-se sempre em frente.
Michael (McGregor) é um chef e Susan (Green)uma epidemiologista. Conhecem-se quando uma estranha doença grassa pelo mundo. Como destacado no título, os sentidos são o cerne da moléstia. O primeiro grande sintoma é a perda do olfato.
Aparentemente, perde-se pouco. Reforça-se o uso dos outros sentidos. Em especial, o paladar.
Mas os habitantes do planeta vão a pouco e pouco se tornando mais deficientes. O que se passa, então, é o caminho de substituição, do desenvolvimento exacerbado dos sentidos restantes, do aprendizado pela perda.
O título oculta - e as críticas quase não fazem menção-, mas outra parte dos sintomas são as emoções. Entre um decréscimo e outro, os acometidos choram, riem, zangam-se.
Ou seja, destacam-se os sentidos, esquecem-se os sentimentos.
Mas um dos pontos cruciais na leitura do filme é o de que, como toda ficção científica, Sentidos do Amor é fatalista e propõe ensinamentos. Especificamente, parece retomar a ideia de que toda percepção é falsa, pois produzida pelas ilusões dos sentidos. Mas a escolha dos espectadores é levada para outro lado.
Desde o título, a versão brasileira capta a ideia de que a pretensão é a de que seja uma sensacional história do amor.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Para um amigo que não conhece Oswaldo Montenegro
Cuidar de amor exige mestria.
Ah, se fosse como a gente quer!
Se eu soubesse como te encontrar
nessa valsa triste...
Ah, se fosse como a gente quer!
Se eu soubesse como te encontrar
nessa valsa triste...
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Águas de janeiro de 82
Em 2002, nossa cultura da efeméride instituiu um ano em honra e glória de Drummond. Edições especiais, nova fortuna crítica, eventos. Todos citavam o poeta de Itabira, até o Casseta&Planeta.
Naquele tempo, fazia vinte anos da morte de Elis, mas a data foi ofuscada pelo centenário drummondiano.
Hoje - quando se completam trinta - há uma programação melhor: discos inéditos, turnê de Maria Rita.
Para este singelo digitador, o que chamou a atenção em Elis foi a diversidade. Sempre foi meio estranho entender como alguém podia ir da exaltação de Arrastão ao ensimesmamento de Atrás da Porta. Como alguém conseguia ir de Maysa a Nara em um mesmo disco.
Elis nunca teve medo do exagero. Nem da contenção. Controlava ambos.
Outro ponto a fazer permanecer o interesse em Elis era sua coragem. Alcançado o estatuto de grande estrela de nossa música, o caminho natural seria o de gravar apenas uns poucos compositores consagrados. Mas não. Ninguém lançou tanta gente quanto ela: de Renato Teixeira a Guinga, passando por Ivan Lins, João Bosco, Belchior, Milton. Além disso, coube a ela versões definitivas de canções já marcadas pela voz de seus autores: Adoniran, Gil, Caetano, Jobim, Roberto.
Ao se cercar de tão variados compositores, Elis proporcionou a praticamente todas as tendências da música brasileira de então um registro digno e definitivo.
O aparecimento de Elis como referência estética se deu num momento em que poderia se chamar epifânico, caso fosse eu um grande escritor. Esse instante rememorado amiúde ocasionou um poema já exibido por aqui.
As contingências que cercaram o ano de 1982 mereceram outro gracejo pretensamente literário, chamado Signos.
O fato de Elis inspirar neste escriba menor um poema tão prosaico e uma prosa pretendendo lirismo talvez indique o desejo de conseguir algo que para ela parecia fácil: o arrebatamento pela força própria da palavra. Cada interpretação sua era um poema.
Em 2002, em anotações num velho caderno, registrei uma brincadeira citatória: apesar de termos feito tudo o que fizemos, nada será como Elis; depois dela, não apareceu mais ninguém.
Mas em 2003, Maria Rita gravou Encontros e Despedidas e tudo pareceu continuar num epílogo.
Nada de novo existe neste planeta. Só continuações.
Naquele tempo, fazia vinte anos da morte de Elis, mas a data foi ofuscada pelo centenário drummondiano.
Hoje - quando se completam trinta - há uma programação melhor: discos inéditos, turnê de Maria Rita.
Para este singelo digitador, o que chamou a atenção em Elis foi a diversidade. Sempre foi meio estranho entender como alguém podia ir da exaltação de Arrastão ao ensimesmamento de Atrás da Porta. Como alguém conseguia ir de Maysa a Nara em um mesmo disco.
Elis nunca teve medo do exagero. Nem da contenção. Controlava ambos.
Outro ponto a fazer permanecer o interesse em Elis era sua coragem. Alcançado o estatuto de grande estrela de nossa música, o caminho natural seria o de gravar apenas uns poucos compositores consagrados. Mas não. Ninguém lançou tanta gente quanto ela: de Renato Teixeira a Guinga, passando por Ivan Lins, João Bosco, Belchior, Milton. Além disso, coube a ela versões definitivas de canções já marcadas pela voz de seus autores: Adoniran, Gil, Caetano, Jobim, Roberto.
Ao se cercar de tão variados compositores, Elis proporcionou a praticamente todas as tendências da música brasileira de então um registro digno e definitivo.
O aparecimento de Elis como referência estética se deu num momento em que poderia se chamar epifânico, caso fosse eu um grande escritor. Esse instante rememorado amiúde ocasionou um poema já exibido por aqui.
As contingências que cercaram o ano de 1982 mereceram outro gracejo pretensamente literário, chamado Signos.
O fato de Elis inspirar neste escriba menor um poema tão prosaico e uma prosa pretendendo lirismo talvez indique o desejo de conseguir algo que para ela parecia fácil: o arrebatamento pela força própria da palavra. Cada interpretação sua era um poema.
Em 2002, em anotações num velho caderno, registrei uma brincadeira citatória: apesar de termos feito tudo o que fizemos, nada será como Elis; depois dela, não apareceu mais ninguém.
Mas em 2003, Maria Rita gravou Encontros e Despedidas e tudo pareceu continuar num epílogo.
Nada de novo existe neste planeta. Só continuações.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Castilho
Em apenas um instante,
(por muito parecidas)
as poucas cores se fundem
às dominantes sombras.
Surge a lembrança do brilho
num derradeiro salto.
(por muito parecidas)
as poucas cores se fundem
às dominantes sombras.
Surge a lembrança do brilho
num derradeiro salto.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A grandiosidade das coisas menores
Desde o título, os Poemas Coronários (São Paulo: Globo, 2009), de Cyro dos Anjos, carregam ambiguidade e contradição.
Em primeiro lugar, por chamar poemas algo tão assemelhado com a prosa quanto os doze textos díspares que se enfileiram.
Em seguida, por, ao qualificá-los de coronários, invocar tanto o significado literário quanto a acepção médica do termo. Está-se diante de uma coroa de poemas e/ou de obra inspirada pelos problemas cardíacos do autor, constatados pouco antes de sua feitura, entre agosto e setembro de 1.963.
Para absorver melhor o jogo irônico proposto pelo autor, é preciso resgatar o significado de coroa no âmbito poético, já desusado pelo leitor contemporâneo e, provavelmente, já gasto meio século atrás, quando Cyro dos Anjos o empregou em tom jocoso.
Uma coroa de sonetos, informa-nos Afonso Félix de Sousa, nada mais é do que
uma sequência de quinze sonetos interligados, embora conservando cada uma a autonomia, nos quais o último verso do primeiro deles deve figurar como primeiro verso do seguinte, e assim sucessivamente, até chegar ao décimo quinto, que nada mais é que a transcrição, em ordem, dos últimos versos dos quatorze sonetos escritos. (in John Donne, Sonetos de Meditação, Rio de Janeiro: Philobliblion, 1985).
Ora, em 1.963, os sonetos e as formas fixas já estavam devidamente contestados e redimensionados pelo ideário modernista, de que Cyro dos Anjos é herdeiro.
Se a forma já foi subvertida em textos nos quais, no dizer de Paulo Franchetti, apenas o corte visual denuncia a intenção de verso (Posfácio da edição citada acima), a matéria é a grande mistura do que o poeta convalescente pretende dizer. Como num delírio, vai-se da louvação (Louvado seja o irmão dia) à constatação ambiguamente literária (Sem rima nem metro).
Os doze poemas sumariados, contudo, não completariam essa mal-arranjada coroa. Somando-se a eles, apresenta-se um tríplice aparato pré-textual (Franchetti): uma página de rosto, uma invocação e uma dedicatória.
Na primeira, tem-se a obra e o autor na fórmula: Lira Ingênua/ de/ Belmiro Montesclarino. Segue-se, então a titulação: Cavaleiro da Ordem Hospitalária/e/ Escritor Menor/ Membro da Academia dos Angustiados. Por fim, sabe-se que em Temerário Assomo/ Quis Dar Expressão/ às Visões e Efusões/ das noites/ em/ claro.
A apresentação, portanto, funde ironicamente o autor e sua mais famosa personagem, a honra da vida social e a deliquescência física, a arte e o fracasso pessoal, a gravidade da morte e a graciosidade do escritor em seu único livro de poemas.
A segunda parte do tríptico prefacial invoca a imagem de São Francisco de Assis, rogando o perdão do pasticho: juntam-se à confusão da apresentação a humildade do santo e a ironia do artista.
Por fim, a dedicatória: Ofertado a/ Dona Lilita,/ senhora minha,/ e às filhas e filhos,/ bem como às noras, genros e netos/ que a todos tenho/ grande estimação.
O poeta aqui, em desespero piegas, cuida de não esquecer de ninguém - provavelmente na ilusão de não ser esquecido.
São essas três peças iniciais – cujo exagero parece querer retardar a entrada no assunto desagradável – que darão a chave interpretativa da obra: poemas que oscilam – tanto estilística quanto substancialmente – entre a grandiosidade pomposa e o coloquialismo comezinho, sempre no registro da proximidade do pequeno grande final.
Repetindo esse embate, o poeta invoca o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó; constata Já vi o que não quisera ver/ e nem das coisas belas tenho mais curiosidade; descobre que a verdade só convém as jovens, aos obstinados; e se despede das nobres damas e cavalheiros/ que na simpatia e na amizade/ superlativamente me honraram/ aplaudindo esta fraca função.
Igualando seu martírio a uma função, ou seja, a uma encenação recheada de citações literárias e ilustrada com gravuras de Holbein, o jovem, o poeta acaba por transferir para a criatura Belmiro todo o ridículo antes congregado ao sofrimento real do autor, imputando-lhe a culpa pelo fingimento da dor que é deveras sua.
Contrapondo a solenidade da indesejada das gentes à pequenez da própria vida, Cyro dos Anjos consegue, num intrincado jogo metalinguístico, uma alta realização na linhagem modernista dos poetas das coisas menores.
Em primeiro lugar, por chamar poemas algo tão assemelhado com a prosa quanto os doze textos díspares que se enfileiram.
Em seguida, por, ao qualificá-los de coronários, invocar tanto o significado literário quanto a acepção médica do termo. Está-se diante de uma coroa de poemas e/ou de obra inspirada pelos problemas cardíacos do autor, constatados pouco antes de sua feitura, entre agosto e setembro de 1.963.
Para absorver melhor o jogo irônico proposto pelo autor, é preciso resgatar o significado de coroa no âmbito poético, já desusado pelo leitor contemporâneo e, provavelmente, já gasto meio século atrás, quando Cyro dos Anjos o empregou em tom jocoso.
Uma coroa de sonetos, informa-nos Afonso Félix de Sousa, nada mais é do que
uma sequência de quinze sonetos interligados, embora conservando cada uma a autonomia, nos quais o último verso do primeiro deles deve figurar como primeiro verso do seguinte, e assim sucessivamente, até chegar ao décimo quinto, que nada mais é que a transcrição, em ordem, dos últimos versos dos quatorze sonetos escritos. (in John Donne, Sonetos de Meditação, Rio de Janeiro: Philobliblion, 1985).
Ora, em 1.963, os sonetos e as formas fixas já estavam devidamente contestados e redimensionados pelo ideário modernista, de que Cyro dos Anjos é herdeiro.
Se a forma já foi subvertida em textos nos quais, no dizer de Paulo Franchetti, apenas o corte visual denuncia a intenção de verso (Posfácio da edição citada acima), a matéria é a grande mistura do que o poeta convalescente pretende dizer. Como num delírio, vai-se da louvação (Louvado seja o irmão dia) à constatação ambiguamente literária (Sem rima nem metro).
Os doze poemas sumariados, contudo, não completariam essa mal-arranjada coroa. Somando-se a eles, apresenta-se um tríplice aparato pré-textual (Franchetti): uma página de rosto, uma invocação e uma dedicatória.
Na primeira, tem-se a obra e o autor na fórmula: Lira Ingênua/ de/ Belmiro Montesclarino. Segue-se, então a titulação: Cavaleiro da Ordem Hospitalária/e/ Escritor Menor/ Membro da Academia dos Angustiados. Por fim, sabe-se que em Temerário Assomo/ Quis Dar Expressão/ às Visões e Efusões/ das noites/ em/ claro.
A apresentação, portanto, funde ironicamente o autor e sua mais famosa personagem, a honra da vida social e a deliquescência física, a arte e o fracasso pessoal, a gravidade da morte e a graciosidade do escritor em seu único livro de poemas.
A segunda parte do tríptico prefacial invoca a imagem de São Francisco de Assis, rogando o perdão do pasticho: juntam-se à confusão da apresentação a humildade do santo e a ironia do artista.
Por fim, a dedicatória: Ofertado a/ Dona Lilita,/ senhora minha,/ e às filhas e filhos,/ bem como às noras, genros e netos/ que a todos tenho/ grande estimação.
O poeta aqui, em desespero piegas, cuida de não esquecer de ninguém - provavelmente na ilusão de não ser esquecido.
São essas três peças iniciais – cujo exagero parece querer retardar a entrada no assunto desagradável – que darão a chave interpretativa da obra: poemas que oscilam – tanto estilística quanto substancialmente – entre a grandiosidade pomposa e o coloquialismo comezinho, sempre no registro da proximidade do pequeno grande final.
Repetindo esse embate, o poeta invoca o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó; constata Já vi o que não quisera ver/ e nem das coisas belas tenho mais curiosidade; descobre que a verdade só convém as jovens, aos obstinados; e se despede das nobres damas e cavalheiros/ que na simpatia e na amizade/ superlativamente me honraram/ aplaudindo esta fraca função.
Igualando seu martírio a uma função, ou seja, a uma encenação recheada de citações literárias e ilustrada com gravuras de Holbein, o jovem, o poeta acaba por transferir para a criatura Belmiro todo o ridículo antes congregado ao sofrimento real do autor, imputando-lhe a culpa pelo fingimento da dor que é deveras sua.
Contrapondo a solenidade da indesejada das gentes à pequenez da própria vida, Cyro dos Anjos consegue, num intrincado jogo metalinguístico, uma alta realização na linhagem modernista dos poetas das coisas menores.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Proezinhas XV
Com quem será?
Hora do buquê.
Olhos se detêm no alto.
Encalhou no lustre.
Enquanto fazia o café
Cheiro de queimado.
Vizinho foi reclamar.
Infarto fatal.
Hora do buquê.
Olhos se detêm no alto.
Encalhou no lustre.
Enquanto fazia o café
Cheiro de queimado.
Vizinho foi reclamar.
Infarto fatal.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Perdas e ganhos de um escritor
Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, é apresentado como a primeira parte de uma trilogia. Por esse romance, o autor foi indicado a alguns prêmios.
Li o romance no final de 2011, um tanto atrasado em relação aos concursos literários. Curiosamente, meu exemplar veio revestido com aviso de que o título havia sido indicado a um dos prêmios numa categoria de autores iniciantes.
Foi provavelmente falha dos depósitos das editoras, mas levou a uma boa reflexão.
Minha mãe se matou sem dizer adeus é de certa forma uma estreia para Ferreira. É a primeira vez que sai publicado por um gigante de nosso crescente mercado editorial. Seus títulos anteriores saíram por editoras menores como a Hedra e a 34.
É também a primeira vez que o título não é composto de um vocábulo “exótico”.
A narrativa apresenta outra estreia. Na verdade, um aprimoramento: Ferreira substitui as expressões onomatopeicas por frases-ideias.
Se antes era comum o leitor se deparar com um “apre” ou um “catrâmbias” delimitando o texto ou o preenchendo, essa função é executada por frases como “Chove choro” ou “A vida é ruim; eu sei.”
Vai-se, assim, da coda à glosa. Se antes, o talento de Ferreira apresentava uma sequência impressionante de neologismos, resgates de verbetes raros, assonâncias, aliterações; agora, o narrador respira, rumina suas obsessões, e as desenvolve. Se o texto já não tem a exuberância da surpresa constante, compensa muito bem essa falta com uma narrativa muito mais pungente, concentrada, sem perder o encanto do estilo; na verdade, destacando-o muitas vezes.
A recursividade, fundamental na obra de Ferreira, fixa-se, como sempre, no desenvolvimento do desatino de seu narrador, mas numa evolução gradual que acompanha a obra do autor (Araã, Erefuê, Zaratempô), e que parece agora completa, foi-se do fonema à frase.
O escritor, assim, afastou o risco do envelhecimento da novidade. A iguaria, quando servida repetidamente, pode repelir o paladar.
Em outro aspecto fundamental da obra de Ferreira, também se percebe a evolução: o humor se refina e cede, quando preciso, à gravidade. O humor negro, o sarcasmo e o chiste dão passagem à - chamemos assim – resignação graciosa. Um exemplo: Temos muito em comum: mãe dela também se matou – mas disse adeus. Ou: (...) não suportaria conviver com alguém de humor tão refinado nesses instantes finais.
O talento camuflador de Ferreira conseguiu diminuir a dramaticidade da trajetória de um vendedor de enciclopédias (Araã) ou do réu aguardando julgamento (Erefuê). Em Zaratempô, contudo, o luto fez a balança pender para a seriedade. Em Minha mãe se matou sem dizer adeus, o drama é definitivamente vencedor, mas sem ser piegas ou sisudo.
O caráter dramático é realçado pelas (in)certezas das divagações de um velho numa mesa de café, preso pela chuva. A inafastabilidade do desfecho – própria das grandes tragédias – não é preenchida com grandes ações, mas por uma conformada(?) espera, permeada de suposições , empatias, citações literárias. O pensamento, o gosto e a cultura tentam dar algum sentido a algo que vai perdendo qualquer vestígio dele. O fim evidencia e ofusca os fins.
O livro, por sua vez, deixa no leitor a incômoda sensação do aguardo pelos outros volumes da anunciada trilogia, pois seu advento deverá ser encantador e desencantado ao mesmo tempo.
O que esperar de uma escrita que aprimora sua beleza na perda?
Li o romance no final de 2011, um tanto atrasado em relação aos concursos literários. Curiosamente, meu exemplar veio revestido com aviso de que o título havia sido indicado a um dos prêmios numa categoria de autores iniciantes.
Foi provavelmente falha dos depósitos das editoras, mas levou a uma boa reflexão.
Minha mãe se matou sem dizer adeus é de certa forma uma estreia para Ferreira. É a primeira vez que sai publicado por um gigante de nosso crescente mercado editorial. Seus títulos anteriores saíram por editoras menores como a Hedra e a 34.
É também a primeira vez que o título não é composto de um vocábulo “exótico”.
A narrativa apresenta outra estreia. Na verdade, um aprimoramento: Ferreira substitui as expressões onomatopeicas por frases-ideias.
Se antes era comum o leitor se deparar com um “apre” ou um “catrâmbias” delimitando o texto ou o preenchendo, essa função é executada por frases como “Chove choro” ou “A vida é ruim; eu sei.”
Vai-se, assim, da coda à glosa. Se antes, o talento de Ferreira apresentava uma sequência impressionante de neologismos, resgates de verbetes raros, assonâncias, aliterações; agora, o narrador respira, rumina suas obsessões, e as desenvolve. Se o texto já não tem a exuberância da surpresa constante, compensa muito bem essa falta com uma narrativa muito mais pungente, concentrada, sem perder o encanto do estilo; na verdade, destacando-o muitas vezes.
A recursividade, fundamental na obra de Ferreira, fixa-se, como sempre, no desenvolvimento do desatino de seu narrador, mas numa evolução gradual que acompanha a obra do autor (Araã, Erefuê, Zaratempô), e que parece agora completa, foi-se do fonema à frase.
O escritor, assim, afastou o risco do envelhecimento da novidade. A iguaria, quando servida repetidamente, pode repelir o paladar.
Em outro aspecto fundamental da obra de Ferreira, também se percebe a evolução: o humor se refina e cede, quando preciso, à gravidade. O humor negro, o sarcasmo e o chiste dão passagem à - chamemos assim – resignação graciosa. Um exemplo: Temos muito em comum: mãe dela também se matou – mas disse adeus. Ou: (...) não suportaria conviver com alguém de humor tão refinado nesses instantes finais.
O talento camuflador de Ferreira conseguiu diminuir a dramaticidade da trajetória de um vendedor de enciclopédias (Araã) ou do réu aguardando julgamento (Erefuê). Em Zaratempô, contudo, o luto fez a balança pender para a seriedade. Em Minha mãe se matou sem dizer adeus, o drama é definitivamente vencedor, mas sem ser piegas ou sisudo.
O caráter dramático é realçado pelas (in)certezas das divagações de um velho numa mesa de café, preso pela chuva. A inafastabilidade do desfecho – própria das grandes tragédias – não é preenchida com grandes ações, mas por uma conformada(?) espera, permeada de suposições , empatias, citações literárias. O pensamento, o gosto e a cultura tentam dar algum sentido a algo que vai perdendo qualquer vestígio dele. O fim evidencia e ofusca os fins.
O livro, por sua vez, deixa no leitor a incômoda sensação do aguardo pelos outros volumes da anunciada trilogia, pois seu advento deverá ser encantador e desencantado ao mesmo tempo.
O que esperar de uma escrita que aprimora sua beleza na perda?
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Solilóquio
Um homem atravessa a avenida principal. Fala consigo. Às vezes, leva uma das mãos à orelha, como se ouvisse uma história transmitida para um rádio invisível; noutras, faz com que as duas bailem no ar em movimentos descompassados ou adeptos de uma particular concepção de ritmo.
O Louco – assim o chamam – veste-se ordinariamente mal: roupas gastas, sujas mesmo. Cheira, também, desconforme ao trato das narinas dos transeuntes sensíveis. Estes desviam do homem, evitam-no, distanciam-se.
Ele, alheio a isso, sorri com uma alegria de gengivas à mostra e faces despreocupadas. Caminha sem pressa. E canta. E fala. E gargalha.
Para falar sozinho - dizem as novas etiquetas - , é elegante carregar uma feição azafamada e alinhar a camisa.
O Louco – assim o chamam – veste-se ordinariamente mal: roupas gastas, sujas mesmo. Cheira, também, desconforme ao trato das narinas dos transeuntes sensíveis. Estes desviam do homem, evitam-no, distanciam-se.
Ele, alheio a isso, sorri com uma alegria de gengivas à mostra e faces despreocupadas. Caminha sem pressa. E canta. E fala. E gargalha.
Para falar sozinho - dizem as novas etiquetas - , é elegante carregar uma feição azafamada e alinhar a camisa.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Para um amigo que não conhece Odair José
As minhas coisas de repente estão tristes.
Mas não faz mal:
Eu vou levar você para morar comigo!
Mas não faz mal:
Eu vou levar você para morar comigo!
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Interrompido
A chuva insistente
derruba pétalas rubras
sob olhos incrédulos.
Às vezes o sol não sai
- descobrem os beija-flores.
derruba pétalas rubras
sob olhos incrédulos.
Às vezes o sol não sai
- descobrem os beija-flores.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Poesia - O filme
Poesia ganhou resenhas elogiosas desde sua exibição no Festival de Cannes. Saudado como “filme do ano” por alguns especialistas, traz desde o título suas contradições. Sim, porque Poesia envolve em si o conflito do grande com o minúsculo, da arte poética com o trabalho miúdo dos poetas.
Se a Poesia maiúscula é intangível por sua magnitude, a poesia dos artesãos escorre sorrateira entre os dedos.
O filme de Chang-dong Lee trata basicamente disto: o conflito entre o todo e a ínfima parte, ambos ilimitados em suas grandezas.
Mija (Jeong-hie Yun) é uma sexagenária que cuida do neto, enquanto a mãe do adolescente vive em outra cidade. Para garantir um incremento na pensão, auxilia um velho sobrevivente de um derrame a tomar banho e organizar minimamente a casa.
Certo dia, vê o cartaz de um curso sobre poesia no centro cultural de sua cidade e resolve fazer a inscrição, ainda que fora do prazo. Traz, então, para a sala de aula as dúvidas e os atalhos próprios de sua vivência.
Em outra cena, comove-se com o luto da mãe de uma jovem suicida.
Descobre mais adiante que seu neto fazia parte de uma grupo que estuprara a menina nos últimos meses de sua vida.
Os pais dos outros rapazes tentam evitar consequências para seus filhos. Propõem uma indenização à mãe do menino. A avó, contudo, não tem recursos para cumprir sua parte e parece não entender (ou não querer aceitar) que o dinheiro possa reparar a dor da mãe.
Em meio a isso, Mija descobre que seus frequentes esquecimentos são os primeiros sinais de demência.
Dizem os especialistas que o processo poético é grande devedor da metáfora e falam em deslocamento de eixos para explicar a força de uma imagem que substitui outra, completando-a.
Tudo isso pode ser simplificado no chiste atribuído a Nerval: O primeiro homem que comparou uma mulher a uma rosa foi um poeta; o segundo, um imbecil.
Num filme chamado Poesia, a busca pela metáfora é impositiva. Ainda que possam ser encantador o modo asiático de ver a natureza, a singeleza da velhice, a atitude contemplativa - ao mesmo tempo, alheia e ensimesmada – da protagonista, o grande desafio é identificar qual o grande par metafórico do poema em movimento que se apresenta.
Pode ser a água, com seus regatos provedores, seus rios limitantes, seus banhos e fluxos. Pode ser a vida, com sua insistência em exigir de cada um sempre mais, normalmente sem contrapartidas ou motivos. Pode ser a poesia, com sua atividade ressignificadora, sua função lúdica e seu efeito educador. E - por que não? - pode ser a própria metáfora.
Os caminhos acima comungam o caráter de continuidade, da corrente que se impõe sempre, ainda que haja imprevistos; pois estes provocam vazantes, mas não impedem o curso. Da precisão e da permanência, nasce a força que arrasta tudo que é menor. Ou parte. Ou metonímia.
Como boa imagem, a interpretação não será única. E poderá trazer outros sentidos em novas visadas. Mas sempre se estará no embate implícito no título. Cada poema, cada vida, cada morte é um ponto (um nada?) na trajetória do tempo interminável.
É provável que a poesia não esteja nas coisas pequenas ou nas grandes. Estará em todas e todas serão pequenas?
Se a Poesia maiúscula é intangível por sua magnitude, a poesia dos artesãos escorre sorrateira entre os dedos.
O filme de Chang-dong Lee trata basicamente disto: o conflito entre o todo e a ínfima parte, ambos ilimitados em suas grandezas.
Mija (Jeong-hie Yun) é uma sexagenária que cuida do neto, enquanto a mãe do adolescente vive em outra cidade. Para garantir um incremento na pensão, auxilia um velho sobrevivente de um derrame a tomar banho e organizar minimamente a casa.
Certo dia, vê o cartaz de um curso sobre poesia no centro cultural de sua cidade e resolve fazer a inscrição, ainda que fora do prazo. Traz, então, para a sala de aula as dúvidas e os atalhos próprios de sua vivência.
Em outra cena, comove-se com o luto da mãe de uma jovem suicida.
Descobre mais adiante que seu neto fazia parte de uma grupo que estuprara a menina nos últimos meses de sua vida.
Os pais dos outros rapazes tentam evitar consequências para seus filhos. Propõem uma indenização à mãe do menino. A avó, contudo, não tem recursos para cumprir sua parte e parece não entender (ou não querer aceitar) que o dinheiro possa reparar a dor da mãe.
Em meio a isso, Mija descobre que seus frequentes esquecimentos são os primeiros sinais de demência.
Dizem os especialistas que o processo poético é grande devedor da metáfora e falam em deslocamento de eixos para explicar a força de uma imagem que substitui outra, completando-a.
Tudo isso pode ser simplificado no chiste atribuído a Nerval: O primeiro homem que comparou uma mulher a uma rosa foi um poeta; o segundo, um imbecil.
Num filme chamado Poesia, a busca pela metáfora é impositiva. Ainda que possam ser encantador o modo asiático de ver a natureza, a singeleza da velhice, a atitude contemplativa - ao mesmo tempo, alheia e ensimesmada – da protagonista, o grande desafio é identificar qual o grande par metafórico do poema em movimento que se apresenta.
Pode ser a água, com seus regatos provedores, seus rios limitantes, seus banhos e fluxos. Pode ser a vida, com sua insistência em exigir de cada um sempre mais, normalmente sem contrapartidas ou motivos. Pode ser a poesia, com sua atividade ressignificadora, sua função lúdica e seu efeito educador. E - por que não? - pode ser a própria metáfora.
Os caminhos acima comungam o caráter de continuidade, da corrente que se impõe sempre, ainda que haja imprevistos; pois estes provocam vazantes, mas não impedem o curso. Da precisão e da permanência, nasce a força que arrasta tudo que é menor. Ou parte. Ou metonímia.
Como boa imagem, a interpretação não será única. E poderá trazer outros sentidos em novas visadas. Mas sempre se estará no embate implícito no título. Cada poema, cada vida, cada morte é um ponto (um nada?) na trajetória do tempo interminável.
É provável que a poesia não esteja nas coisas pequenas ou nas grandes. Estará em todas e todas serão pequenas?
sábado, 7 de janeiro de 2012
Tudo pelo poder
Tudo pelo poder mostra que o cinema norte-americano (ou certo cinema norte-americano) anda focando suas câmeras no cinismo e na hipocrisia de sua sociedade.
O filme dirigido por George Clooney traz o galão dos anos 90 no papel do governador que disputa as primárias para as eleições presidenciais.
Mas o protagonista, por assim dizer, é um dos assessores de campanha do candidato, vivido por Ryan Gosling.
Na verdade, o protagonismo cabe ao jogo de bastidores em que se digladiam marqueteiros políticos em uma guerra dentro do próprio partido. Guerra intestina, diriam os historiadores antigos.
Stephen (Gosling) é assediado pelo coordenador da campanha adversária, o sagaz Tom (Paul Giamatti). O assédio diminui a confiança de Paul (Philip Seymour Hoffman) em Stephen (seu subordinado).
Para incrementar as intrigas, Stephen é seduzido por uma estagiária (Evan Rachel Wood) que, vai descobrir depois, tem fortes ligações na cúpula do partido. É dessa relação que surgirá seu poder de barganha ou, no jargão executivo, sua capacidade de recolocação no mercado.
O resto é conchavo, manobra, subterfúgio.
A exemplo de Margin Call, outro filme em que não há mocinho. O idealismo cede ao cinismo; a crítica, à hipocrisia.
O filme dirigido por George Clooney traz o galão dos anos 90 no papel do governador que disputa as primárias para as eleições presidenciais.
Mas o protagonista, por assim dizer, é um dos assessores de campanha do candidato, vivido por Ryan Gosling.
Na verdade, o protagonismo cabe ao jogo de bastidores em que se digladiam marqueteiros políticos em uma guerra dentro do próprio partido. Guerra intestina, diriam os historiadores antigos.
Stephen (Gosling) é assediado pelo coordenador da campanha adversária, o sagaz Tom (Paul Giamatti). O assédio diminui a confiança de Paul (Philip Seymour Hoffman) em Stephen (seu subordinado).
Para incrementar as intrigas, Stephen é seduzido por uma estagiária (Evan Rachel Wood) que, vai descobrir depois, tem fortes ligações na cúpula do partido. É dessa relação que surgirá seu poder de barganha ou, no jargão executivo, sua capacidade de recolocação no mercado.
O resto é conchavo, manobra, subterfúgio.
A exemplo de Margin Call, outro filme em que não há mocinho. O idealismo cede ao cinismo; a crítica, à hipocrisia.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Margin Call - O dia antes do fim
Margin Call - O dia antes do fim não é um filme simpático; seu interesse não vem da diversão.
Abordando a crise de 2008, traz uma visão diferente sobre os acontecimentos que levaram tantos investidores à bancarrota. Uma visão em que todos são culpados. Do banqueiro ao pequeno poupador.
No mínimo, culpados pela ignorância. Da ignorância própria ou terceirizada.
O roteiro é interessante: funcionário de empresa financeira é demitido. Antes de ir embora, o novo desempregado deixa com um antigo subordinado arquivos com informação que deveria ser estudada.
Em cumprimento à "missão", o analista chega a resultados catastróficos. Preocupado, contata o chefe de seu antigo chefe.
Então, escancara-se a estrutura das corporações: degraus que não se comunicam, topos que se mantêm.
Ao analista - base da escada - cabe esmiuçar os dados obtidos em linguagem acessível a seus chefes, pois estes, com orgulho e cinismo, confirmam não terem se valido de competência técnica para capitanear suas equipes.
O estrago está para ser feito e é necessário salvar os privilégios de poucos, apresentar um culpado para o mercado e, se possível, lucrar algum.
O chefão - ao menos o de maior escalão a se apresentar - dá a receita para vencer: ser o mais rápido, o mais esperto ou trapacear.
A competência ou o conhecimento, percebe-se, não estão entre os quesitos. Na mão dos rápidos, espertos e trapaceadores, é posto o dinheiro dos investidores. Estes não se importam em saber como os rendimentos de sua carteira são produzidos. Ou como valores se multiplicam sem lastro.
Todos querem apenas ganhar. São, por isso, todos culpados. Por ação e omissão.
No prejuízo, contudo, procuram-se responsáveis e restos.
Com um elenco de ótimos atores (Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Stanley Tucci, Simon Baker), Margin Call evita rotular mocinhos e bandidos e narra a sordidez dos que ganham sempre e a transformação, por outros, de crise em oportunidade, seja por inércia, sagacidade ou mero acaso.
Apresenta, enfim, uma visão nova de algo que não pretende mudar.
Abordando a crise de 2008, traz uma visão diferente sobre os acontecimentos que levaram tantos investidores à bancarrota. Uma visão em que todos são culpados. Do banqueiro ao pequeno poupador.
No mínimo, culpados pela ignorância. Da ignorância própria ou terceirizada.
O roteiro é interessante: funcionário de empresa financeira é demitido. Antes de ir embora, o novo desempregado deixa com um antigo subordinado arquivos com informação que deveria ser estudada.
Em cumprimento à "missão", o analista chega a resultados catastróficos. Preocupado, contata o chefe de seu antigo chefe.
Então, escancara-se a estrutura das corporações: degraus que não se comunicam, topos que se mantêm.
Ao analista - base da escada - cabe esmiuçar os dados obtidos em linguagem acessível a seus chefes, pois estes, com orgulho e cinismo, confirmam não terem se valido de competência técnica para capitanear suas equipes.
O estrago está para ser feito e é necessário salvar os privilégios de poucos, apresentar um culpado para o mercado e, se possível, lucrar algum.
O chefão - ao menos o de maior escalão a se apresentar - dá a receita para vencer: ser o mais rápido, o mais esperto ou trapacear.
A competência ou o conhecimento, percebe-se, não estão entre os quesitos. Na mão dos rápidos, espertos e trapaceadores, é posto o dinheiro dos investidores. Estes não se importam em saber como os rendimentos de sua carteira são produzidos. Ou como valores se multiplicam sem lastro.
Todos querem apenas ganhar. São, por isso, todos culpados. Por ação e omissão.
No prejuízo, contudo, procuram-se responsáveis e restos.
Com um elenco de ótimos atores (Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Stanley Tucci, Simon Baker), Margin Call evita rotular mocinhos e bandidos e narra a sordidez dos que ganham sempre e a transformação, por outros, de crise em oportunidade, seja por inércia, sagacidade ou mero acaso.
Apresenta, enfim, uma visão nova de algo que não pretende mudar.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Seis da tarde
Quando o sol se esconde,
as reses deixam o campo
e recebem sal.
Agarram-se na ilusão
de músculos sempre fortes.
as reses deixam o campo
e recebem sal.
Agarram-se na ilusão
de músculos sempre fortes.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
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