quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cassandra Wilson & Hank Williams

Cassandra Wilson consegue recriar canções. Love is Blindness, por exemplo, nem lembra a faixa de Achtung Baby: tornou-se bela e audível.
Melhorar uma música ruim, contudo, é mais fácil do que reinventar um clássico.
Mesmo com versões de Bob Dylan, Johny Cash, Cowboy Junkies e Elvis Presley, I´m so lonesome I could cry se transforma em outra coisa na sua voz. E, embora gravada há mais de uma década, continua uma novidade.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Buckley

Certas histórias são tão estranhas que parecem inventadas.
As dos Buckley, por exemplo. Pai e filho.



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Consuelo de Paula

Numa época em que as pessoas compravam discos, tive um amigo que era dono de uma loja. A amizade começou na compra de duas procuras antigas: Anita O´Day e a trilha de Lanternas Vermelhas.
A loja ficava perto do cinema e durante as sessões ficava mais vazia. Então, das compras nasceram as conversas. E daí, a amizade.
Conversávamos sobre música, cinema, literatura. Ele me apresentava discos que ouço até hoje. Eu lhe dediquei o poema Elis, que depois transformei numa prosinha, que não soube classificar muito bem.
Certo dia, ele me mostrou um disco. Falou que tinha conhecido a artista e tal.
A música de Consuelo de Paula soava simples e precisa, limpa e bela. Algo distante da técnica insossa das divas dos 90. E falava de roça e de lua, como só quem conhece pode falar.
A história também ajudava o encantamento. Descobríamos que Consuelo era farmacêutica, que tinha bancado o próprio disco, que tinha mais coisa para gravar.
Mauro Dias também descobriu a interpréte e lhe dedicou uma página dominical.
Vieram mais dois discos. O repertório da Trilogia Amarela tinha coisas suas, mas também trazia Ataulfo Alves, Chiquinha Gonzaga, Clementina de Jesus.
Em pouco tempo, Consuelo estava no Ensaio.
Era uma vitória dos matutos.
Depois, a loja fechou, o amigo encerrou todas as suas atividades, e, leio na rede, Consuelo de Paula ainda tem três discos para lançar, enquanto acumulo ideias que relutam em ir para o papel.

domingo, 11 de outubro de 2009

Willy Deville

Estranhei quando vi um "R.I.P." ao procurar vídeos sobre Willy DeVille.
Recorri à Wikipedia, e lá estava o esclarecimento.
DeVille morreu em agosto.
A primeira vez que li sobre ele foi numa reportagem sobre artistas que mantinham um séquito fiel, embora estivessem longe de ser "hit parade". Willy DeVille era o único nome que eu não conhecia na lista. Pela companhia em que ele estava, resolvi procurar. Comprei dois discos.
Ele não ganhou na minha lista o mesmo patamar daqueles que o acompanhavam na reportagem.
Mas tinha coisas bacanas, e vale escutar.



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Mercedes Sosa

No sábado, acessei a rede para procurar algum vídeo de Silvio Rodríguez.
Mas o noticiário me fez procurar algo sobre uma exibição de Martha Argerich e Mercedes Sosa que não se chegou a se realizar.
Colocar Gracias a la vida ou Volver a los 17 seria um tanto óbvio. Por isso, o vídeo abaixo. A voz de Mercedes Sosa coloca uma certa dúvida nos descrentes.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Venus

Está escrito que a diferença entre deuses e homens não é a imortalidade, mas a juventude eterna.
Envelhecer é o castigo dado aos mortais por suas ousadias.
Perder o viço e a força não é provação apenas para quem envelhece, mas também para quem acompanha a degradação.
Dizem, por exemplo, que uma deusa grega não suportou ver a degradação do amado humano: abandonou-o num quarto, donde só ouvia o grito constante.
Envelhecer é dolorido, transformando, muitas vezes, a morte em redenção.
É disso que trata Vênus, de Roger Michell.
Bem diferente do conto de fadas Notting Hill, o filme mostra a incompatibilidade entre a permanência do desejo e o esvaimento das possibilidades.
Peter O´Toole se apaixona pela sobrinha-neta de seu melhor amigo.
Sua personagem, Maurice, é um ator que, após uma carreira de sucesso, aceita o que há pela frente para continuar ativo e ganhar uns trocados. Mesmo que seja o aviltante papel de defunto.
Vez por outra, encontra-se com a mulher (Vanessa Redgrave), com quem já não vive, mas ainda divide dúvidas e dívidas.
Jessie (Jodie Whittaker) abusa de seus poderes de Vênus, conduzindo Maurice como escravo.
Mas há ocasiões em que as coisas saem do controle. Dessas coisas de velhice e morte, Vênus nunca entendeu muito bem.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O soldado romântico

É bem provável que Gran Torino seja o mais romântico dos filmes de Clint Eastwood.
Em Walter Kowalski, está talhado o modelo do homem desconcertado, do herói em busca de valores autênticos, do virtuoso solitário.
Estão ali o pistoleiro, o soldado, o policial. Mas sem uma missão. Kowalski se vê cercado de estranhos, de ignorantes, de gentalhas.
O sonho da grande América parece restrito às conversas com os poucos sobreviventes de seu tempo: o barbeiro, o empreiteiro. Gente que ignora o exagero do politicamente correto e se ofende, mas se respeita.
Kowalski vê a cidade tomada por gangues, por guetos. As ruas tomadas por carros estrangeiros. Os filhos ansiosos por mandá-lo a um asilo.
Mas ele se atrai por aquilo que poderia ser o seu contrário. Uma família de chineses. Do choque, a constatação: pareco-me mais com eles do que com meus filhos.
Percebe, então, que, para além de nacionalismos e fidelidades a empresas, existe algo que os une: uma certa convicção de querer fazer o certo.
Mas as coisas já não deixam definir tranquilamente o que é ou não o correto.
O escudo ou o distintivo do soldado já não explicam o mundo.
É preciso chocar-se com o outro, misturar-se a ele, para encontrar a si próprio.
Há uma última missão para o soldado. E o necessário para essa missão não se encontra numa garagem.

domingo, 20 de setembro de 2009

Não amarás

Assisti três vezes à sexta parte do Decálogo de Kieslowski.
Entre uma e outra e outra, houve intervalos de oito ou nove anos.
A segunda, creio, foi a que mais me marcou.
Mais ou menos como acontece com um bom livro. A primeira é para descobrir a trama. A segunda, para entender a arte. Nessa segunda vez, já estava mais "conhecedor" de Kieslowski: A trilogia das cores e A dupla vida de Verónique já tinham passado nas fitas VHS de uma antiga coleção. Mais alguma coisa da fase polonesa vista em cinema.
É triste que por aqui só se encontrem dois dos filmes do Decálogo, mas ver Não amarás compensa pela força dos diálogos e pela revelação dos silêncios.
E pensar que era uma série para a televisão polonesa dos anos 80!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Memória

Livros sobre futebol feitos no Brasil são quase sempre dispensáveis. Um exercício de elogios desnecessários. Poucos têm a coragem de investigar seriamente as ligações do jogo com as conjunturas nacionais. As exceções ficam ali com Mario Filho e Anatol Rosenfeld. Há também um ou outro bom ensaio sobre as características do ludopédio, suas raízes históricas e sociais. Nesse caso, ponto para Hilário Franco Jr. De resto, não se escreve nada que quem goste de futebol não saiba, nem que quem não goste queira saber.
Interessante, nesse cenário, é o último livro de Boris Fausto. O crime do Restaurante Chinês leva o consagrado historiador a procurar suas memórias de infância e juventude.
Num passado recente e esquecido, um assassinato mobiliza a cidade de São Paulo. Boris Fausto acerta contas com suas lembranças e trata das questões que envolvem a apuração policial e a formação da opinião popular.
Imigrantes, carnaval de rua, rotina,transformação urbana, homens de terno e chapéu. Tudo isso aparece na construção da história. É uma narrativa forense romanceada.
E o futebol nisso tudo?
Aí aparece o gol de Fausto: perceber que o jogo permeia praticamente todos os níveis da convivência brasileira. E mais não se deve falar.
Não é um livro vigoroso, revelador ou pungente.
Mas, escrito com esmero e sinceridade, revela um óbvio um pouco escondido.
O que é um grande mérito.

sábado, 29 de agosto de 2009

Domá da Conceição

Desde que vi o artista no programa do Boldrin, quis entender o que se passava. Sua apresentação era autêntica e segura. Mas sua voz estridente parecia disputar a atenção de quem ouvia sua viola. Mas pouco há sobre Domá da Conceição: um documentário, alguns vídeos, textos vindos de Goiáis. Mas a definição de sua arte é dada por ele mesmo. E poucas vezes um artista falou tão bem sobre a própria produção. Agora as coisas ficam mais claras.


domingo, 12 de julho de 2009

Faltando um pedaço

Por aqui, o filme ganhou o título Fatal. Mais uma vez, os tradutores erraram. Embora a palavra escolhida traga consigo a ideia de inevitabilidade, destino e tragédia, o uso do adjetivo isolado não denuncia a história. Assim, quem vê a capa com Penélope Cruz, pensa em outro roteiro, não na sequência de perdas que a diretora Isabel Coixet foi buscar em Dying Animal, de Philip Roth.
Curiosamente, o título original da produção é Elegy. E esse nome tem a função de integrar o livro, a história, o filme e a literatura de Roth.
Há algum tempo já que se diz que Roth já não tem mais o mesmo vigor e, mesmo quando acerta, fala-se de uma certa monotonia. Contudo, o que parece passar despercebido pela crítica é que Roth já não faz uma literatura da maturidade: desde Pastoral Americana, pelo menos, é um escritor da perda, da deliquescência.
Isso foi notado por Coixet. Se o filme não é perfeito, é correto e eficaz. Não traz para as telas cenas importantes do livro, mas transporta bem as hesitações e confusões de Kepesh (vivido por Ben Kingsley). Além disso, realiza com segurança e sensibilidade boas sequências centradas em Consuela, como a de nudez em que a personagem posa como Maja Desnuda.
Coixet repete a pungência de Minha Vida Sem Mim, faz um filme sobre o livro, mas não o segue; completa-o.
Assim, a falta (e "falta" seria um melhor título do que "fatal") do texto simboliza a ausência da matéria. E a palavra "elegia" facilita a leitura como uma reflexão sobre a morte. Mais do que isso, dá a chave para entender o livro do Roth: uma narrativa em que as lacunas devem ser preenchidas com a vastidão da lembrança.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Estátua

Maior a planta, mais se prende ao plano,
mais os que se servem de suas sombras,
mais os que - solertes - sacam-lhe a seiva.

Seus estames lançam longe as sementes.
Então, vicejam novos arvoredos,
e a vida se faz em diversos vales.

Quando o vento varre o viço e as folhas,
a velhice vence o vigor e o verde,
os vizinhos hesitam, mas desertam.

Da árvore,resta apenas o traço:
- efígie desolada e desbastada
pagando a pena de seu prendimento.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Custos

É sempre melhor calar.
O raro e minguado júbilo
não dura a vida do berro.
O monocórdio mugido
não diminui sol nem frio,
não remoça pasto seco,
nem abrevia distâncias;
apenas nutre lamentos
na equiparência com uivos,
rodas rangentes, berrantes,
aboios de gado humano.
O vento e o tempo sabem:
- Fala de boi vale menos
do que capim esmoído.

sábado, 2 de maio de 2009

Formiga também canta

Em Saco de Gatos, Walnice Nogueira Galvão apresenta uma análise ideológica da Moderna Música Popular Brasileira. Tratando da produção de artistas como Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo, ela apresenta alguns índices reiterados nas letras da produção musical da geração dos festivais.
Numa interpretação livre do ensaio, é possível tirar algumas conclusões. Em primeiro lugar, tem-se que dois aspectos são de especial constância: o cantar e o amanhã. Quando associados, a soma é muito poderosa: cantando, os artistas esquecem dos problemas e esperam o porvir redentor.
A segunda conclusão é que se trabalha muito pouco na música dos jovens dos anos 60. Normalmente universitários e nascidos com bons sobrenomes, a eles resta esperar a natural estabilização das coisas. Enquanto isso, a vida é flauta. Ou violão.
Nesse cenário, é difícil encontrar um lugar para Zé Geraldo, cantor que omite o nome de família, e se mostra mais alinhado com a música de viola do que com a música de pandeiro. Não é de estranhar, portanto, que ele possua um séquito diferenciado. Suas composições de maior sucesso atraem o gosto daqueles que não têm no passado familiar o lastro suficiente para garantir um futuro (o que gera o contentamento com o mínimo) e, que por outro lado, têm no trabalho dever e esperança. Em Senhorita, o violão está guardado para a noite, para depois do dia trabalhado. Em Cidadão, Zé Geraldo faz parecer sua a letra que Lúcio Barbosa escreveu, assim como o trabalhador sem perspectiva acredita tratar-se da própria história.
Distante do samba, Zé Geraldo já disse que suas matrizes são Bob Dylan e Tião Carreiro. Mas, como pedra que muito rolou, não manteve raiz no rústico. Ao longo da estrada, cruzou com Renato Teixeira, Tim Maia e Zeca Baleiro.
Catadô de Bromélias, seu último disco, juntou suas referências e misturou amor, religião, folclore, viola e gaita. De quebra, brincou com as músicas de protesto e fugiu à luta quando convocado por um Guevara de boteco, no velho estilo do "tá ruim, mas tá bão".
Por fim, como trabalhador, fala de desemprego, faz o caminho contrário do êxodo de décadas atrás e oferece seu trabalho. À noite, como tantos outros, quer o som do violeiro. É preciso descansar e ter esperanças depois do dia de lida, pois formiga também canta.

sábado, 25 de abril de 2009

A respeito de um gol e de um comercial

A publicidade brasileira sempre foi exaltada por sua criatividade. Alguns anúncios ganham prêmio em Cannes e lá vai o ufanismo colocar nossos marqueteiros entre os melhores do mundo. Normalmente o publicitário só acerta. Quando erra, o desvio é atribuído ao produto ou, mais frequentemente, ao porta-voz. Foi o que aconteceu com Gérson.
Ronaldo, ainda se recuperando, agrega à sua imagem de vitorioso a da cerveja. Os marqueteiros tentam fazer alguma relação entre meia dúzia de gols feitos pelo atacante em seu novo retorno e a bebida.
Para além da questão moral, está o respeito à inteligência do espectador/consumidor.
Atletas são como a maioria das pessoas: há os que fumam, há os que bebem, há os que não. Mas estabelecer relação entre a condição de bebedor de cerveja e o êxito ou o esforço, entre ser "brahmeiro" e ser "guerreiro", é despropositado. Afinal, quantos bebem e não têm sucesso? Quantos não bebem e são campeões?
Piadas jocosas a respeito de episódios recentes do jogador foram feitas rapidamente, associando o consumo de álcool a problemas de percepção.
Mas, então, o atacante, que entende mais de propaganda do que os outros profissionais da área, agiu. Após um gol em que ficaram nítidos seu esforço e seu suor, ele cruza os braços e mostra o símbolo da cervejaria: o número 1. Une, de uma vez só, sua imagem, a da cerveja, o número 1 e, de quebra, absolve o companheiro que havia sido descortês no domingo anterior.
A idéia não é original: Robinho já comemorou gol com o símbolo da operadora de celular que o patrocinava. Mas, na época, Robinho foi criticado. Quanto a Ronaldo, passou a mensagem de forma rápida, eficaz e sem contestação.

domingo, 22 de março de 2009

Equinócio

O sol esmorece,
azaleias se alvoroçam
antes do rocio.

Março

Desfeitas as nuvens,
o sol se espraia lilás
sobre as quaresmeiras.

Quaresma

Na montanha branca,
o manacá se arroxeia
como penitência.

domingo, 15 de março de 2009

Encontro de velhos senhores (escrito em parceria com Marcos Silva)

“Conservadora e senhorial”, assim Sérgio Buarque define a missão da intelectualidade brasileira. Ainda hoje, esses dois traços se encontram nos produtos de nossa indústria cultural, como na recente parceria entre Roberto Carlos e Caetano Veloso.
Comecemos pelo Rei. Tendo debutado como cantor de bossa nova nos bailes da Guanabara, Roberto Carlos encontrou seu espaço definitivo como ídolo da juventude que presenciou a urbanização de São Paulo – modernização que, tipicamente brasileira, não se deu sem boa dose de manutenção dos cacoetes conservadores – e se manteve por cinco décadas como referência maior do cancioneiro popular.
Com ótimo senso de oportunidade, RC soube aliar a rebeldia de modas e motores à difusão de valores distantes da ideologia da música jovem: diferentemente da atitude iconoclasta de seus colegas de língua inglesa, ele não fez apologia do “comportamento desviante”.
Em sua obra, o sexo vai dos faiscantes beijos da década de 60 à castidade dos anos 90 – medeados pelas metáforas hípicas (70) e pelas grosserias saponáceas (80). Frisando-se que, mesmo em letras pretensamente questionadoras (“Amada amante”), o que se defende é a manutenção de uma estrutura machista e patriarcal. Quanto às drogas, como vovô bem comportado, Roberto superou Clinton: fumou, mas não tragou, ao menos em público, seu irrepreensível cachimbo. No que diz respeito à atitude, seus protestos foram sempre genéricos, embora antenados aos panoramas histórico (“Astronauta”, “Amazônia”) e musical (“Todos estão surdos”, “Jesus Cristo”).
Em linhas gerais, ele conseguiu passar de Elvis a Sinatra sem perder a majestade, ou seja,sem nunca ter sido verdadeiramente imoral, ilegal ou gordo.
Embora as duas faces apontadas em “Raízes do Brasil” sejam indissociáveis, o senhorialismo se mostra mais claramente na vida e obra de Caetano Veloso: ainda que negue, Caetano incorporou à indústria cultural as mesmas práticas cordiais de velhos coronéis políticos, arrogando para si a autoridade de chancelar produtos e, até mesmo, reputações artísticas.
Por décadas, Caetano Veloso abusou da relação retroalimentar que mantinha ( e ainda mantém de certa forma) com a imprensa: fazendo parte dos chamados poetas da MPB - grupo que, tendo ocupado a lacuna deixada pela literatura, deslumbrou a mídia com a inventividade de sua produção – e constantemente chamado a opinar sobre os mais diversos assuntos, encantou-se com a possibilidade de ser cacique e não índio.
Sob a roupagem de divulgador antropofágico, atuou como abalizador de determinada produção popular.
Quando “Sozinho” fez sucesso em sua voz, o que aconteceu foi o cume de um processo de alavancagem amplamente utilizado em sua carreira, pelo qual emprestava seu prestígio e capitalizava a popularidade de artistas estranhos ao seu público convencional. Em apresentação modernizada, recuperava cânones da velha tradição de fossa e sofrimento amoroso da desprezada música brega.
Muito repetido, tal processo - que “recuperou” Odair José, Vicente Celestino, Fernando Mendes, Peninha e Wando – exige, a cada turno, uma popularidade maior como apoio, dando mostras de esgotamento.
Conveniente se mostrou, então, a dobradinha conservadorismo-senhorialismo representada pelo inevitável encontro de dois ícones, a esta altura, esvaziados.
Cheirando a oportunismo, o fato de que a união se tenha dado em torno da etiqueta Tom Jobim, nos estertores das comemorações dos 50 de 58, é algo a se notar, assim como o resultado desalentador de uma soma bem menor do que suas partes.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Caracois

Findo o temporal
a caravana procura
novo acampamento

domingo, 4 de janeiro de 2009

A lei e Os outros

É curioso como as referências se encaixam.
Quando assisti a Os outros, saí com a impressão de "parece com A volta do parafuso, mas não parece".
Tempos depois, ficou mais claro: Alejandro Amenábar havia se inspirado em Os Inocentes, filme baseado no livro de Henry James.
Com A Lei, de Roger Vailland, foi o contrário. As descrições, as personagens, a esperteza de Mariette, as intrigas... Tudo recendia a algo de brasileiro. Mas o que era?
Assistindo a La Loi, de Jules Dassin, ficou mais claro.
Era Jorge Amado.
É possível que Vailland tenha lido algo do escritor brasileiro. Gabriela é de 1958, e A Lei, de 1957. Pode ser algo de Zeitgeist.
Mas também é possível que os adaptadores de Jorge Amado tenham visto La Loi.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Viagem ao Princípio do Mundo

É curioso que um filme que diga tanto sobre Portugal seja falado em francês.
Mais estranho é assistir a ele com legendas em inglês.
Uma década depois de seu lançamento, Viaqem ao Princípio do Mundo ainda é um filme pouco visto. No formato DVD, só existe importado (eis o motivo das legendas). De resto, é preciso que se aguarde alguma retrospectiva da obra de Manoel de Oliveira.
O filme é o último de Mastroianni e se encaixa bem na sequência de Três Vidas e uma Só Morte e Páginas da Revolução.
Sua personagem, o diretor de cinema Manoel, faz lembrar o professor do bergmaniano Morangos Silvestres. Mas o roteiro aos poucos vai definindo Portugal pelos contrastes: ricos e pobres, jovens e velhos, religião e cultura, folclore e história, aldeias e cidades.
Entre tais confrontos, dois pontos parecem forjar uma síntese portuguesa: a língua e a saudade. Esta parece se distinguir do nóstos ou do homesick de outros cantos. Afonso, interpretado por Jean-Yves Gautier, ao procurar a irmã do pai, apresenta um dos traços da saudade lusófona: sentir falta do que nunca houve.
Quanto à Língua Portuguesa, ela está ali: camuflada numa conversa em francês traduzida por Judite (Leonor Silveira), nos versos de Camões, nos versos sobre Pedro Macau.
E a tia (Isabel de Castro) pergunta a Afonso, insistentemente: Se és do meu sangue, por que não falas minha fala?
Tudo isso na cadência de Manoel de Oliveira.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Humano, demasiado humano

Aline escreveu no Até aqui tudo bem algumas considerações sobre insultos com nomes de animais.
De fato, alguns deles são estranhos. Houaiss, por exemplo, diz que a acepção "disfêmica e tabuística" (quanto palavrão) de "veado" ainda não foi satisfatoriamente explicada.
A escolha de um ou outro animal para determinada qualificação reflete uma forma de pensar. Assim, na Revolução dos Bichos , os cavalos trabalham como burros, e os porcos são uns ratos.
Mas os bichos também servem aos elogios: coruja e gata são alguns casos.
Cada época escolhe a fêmea a hostilizar. Já foi a loba, donde o lupanar. Hoje, por aqui, pode ser vaca ou galinha.
Em outros lugares, isso pode ser uma grande ofensa ao bicho.
É possível que tudo não seja mais do que uma projeção de virtudes e defeitos do homem nos bichos, e não o contrário.
Talvez, no Chile ser chamado de "cachorro" deva ser um grande elogio.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Obituário e Pranto Precoce

Os jornais anunciam a morte de Harold Pinter, escritor britânico.
A morte de um escritor é de se lamentar, pois, enquanto vive, ele faz valer a esperança de que uma frase única seja dita ou escrita. Ainda que tudo já tenha sido dito, ao escritor cabe dizer de um novo modo, numa nova combinação - às vezes esclarecedora, às vezes inquietante. Em raras ocasiões, esclarecedora e inquietante.
Confesso que meu contato com a obra de Pinter é pouco. Assisti à montagem brasileira de "O amante", e ao filme "Um jogo de vida ou morte", roteirizado por ele.
Em ambos os casos, não achei nada de extraordinário, mas a falha na leitura pode ser minha.
Ainda não sei direito se ele morreu dia 24 ou 25. No dia de natal, morreram James Brown, Miró e Chaplin. No dia 24, Vasco da Gama, Toshiro Mifune e Oscar Peterson. Ainda não sei de que lado a efeméride o deixou.
Mais triste do que a morte de Pinter, porém, é a entrevista de Manoel de Barros à revista Caros amigos deste mês. Ele, que é provavelmente o maior poeta brasileiro, revela que seu terceiro volume de memórias é seu último livro. É com certeza um presente que Manoel de Barros ainda produza. Sabe-se que o fim da produção está próximo, por motivos naturais. Mais um anúncio assim termina com certas esperanças. De um verso inquietante e esclarecedor.
Resta, então, reler, mais uma vez, seus desaforos em forma de poemas.

sábado, 15 de novembro de 2008

Funeral Blues - W.H.Auden

Funéreos Blues

Parem os relógios! Cortem o telefone!
Que não ladre o cão ante os sumarentos ossos!
Calem o piano e, sob mortiços tambores,
tragam o esquife, deixem seguir o cortejo.

Que, no alto, lamentem os aeroplanos,
garatujando nas nuvens: ele está morto.
Ornem com laço de fita as pombas da praça,
calcem os guardas luvas pretas de algodão.

Ele era meu norte, sul, leste, oestes;
os dias de lida, descanso dos domingos;
meio-dia, meia-noite; prosa, canção.
Pensei que não teria fim o Amor: errei.

Já dispenso as estrelas. Que se apaguem todas!
Embalem a lua, desmantelem o sol,
deixem escoar o mar, dissipem as matas.
Pois, agora, nada mais me pode servir.

texto original

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Para não dizer que não falei das cores

Ouvi certa vez, e não sei se é verdade, que, na América dos norte-americanos, é considerado negro aquele que tiver, em até seis gerações anteriores, um ancestral negro. E tal constatação faz o cidadão ser negro, antes de americano.
Por aqui, somos quase todos mestiços. Procura-se ao contrário o sinal do branco, do europeu. E, assim, há descendentes de terceira, quarta geração, que se pensam europeus antes de brasileiros.
É estranho que, ainda hoje, cor e ascendência possa ser motivo de mácula ou honra.
É estranho que, em 2008, cause furor a eleição de um presidente mestiço (ou negro para os padrões de lá) na maior democracia do mundo. Basta lembrar que, em 1909, o Brasil havia rompido esse limite.
Cinqüenta e cinco anos depois do discurso de King, o preconceito persiste.
Faz falta, então, a voz de Makeba.


Makeba, ícone do movimento pelos direitos civis, sofreu as conseqüências de sua luta.
Mas deixou alguns sucessos como "Pata Pata", que por aqui teve versão de Simonal.
Simonal, por sua vez, gravou sua homenagem ao sonhador King.

Obama, magro e alto, faz lembrar Simonal.`
Oxalá ele se lembre de King e aplique seu ideal ("I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.") em relação a todos os homens que hoje são perseguidos em seu país por causa da cor da pele ou de sua ascendência.
Já diria Simonal: "Luta negra demais é lutar pela paz".

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Emily Dickinson - Loucura

Loucura demais é o mais divino Senso
Para um olho crítico
Senso demais - a mais dura Loucura
Nisto, como em tudo,
triunfa a Maioria
Aceita e serás são
Declina e serás imediatamente perigoso
E mantido na Cadeia

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Emily Dickinson - A Dor

A Dor tem Algo de Lacuna.
Não se pode recordar
Seu início - ou se houve tempo
em que não existiu.

Não tem futuro - além de si -
Seu infinito contém
Seu passado - esclarecido para reconhecer
Novos Períodos de Dor.

sábado, 27 de setembro de 2008

Filmes Perdidos X

Por aqui, ganhou o nome de Páginas da Revolução. Um pouco da tradição brasileira na tradução de nomes de filmes. É sempre bom lembrar que Bus Stop se tornou Nunca fui santa - algo como "No ponto" seria mais apropriado para o filme estrelado por Marilyn Monroe.
Voltando às "Páginas"... O título original do filme de Roberto Faenza - baseado em romance de Antonio Tabucchi - é "Sostiene Pereira" e foi chamado em Portugal de ... "Afirma Pereira".
O interessante do filme é a ligação de dois italianos com Portugal: Mastroianni e Tabucchi.
O escritor, apaixonado por Fernando Pessoa, é vezeiro nas referências a Lisboa e Pessoa. Em entrevista recente, ele conta que a descoberta do poeta português se deu por acaso, que ganhou uma bolsa de estudos em Lisboa e outras coisas que o levaram até mesmo a fazer literatura em português.
Quanto a Mastroianni, embora o sítio Melhores Filmes não tenha dado uma classificação muito honrosa a Páginas da Revolução no quadro geral das produções de que participou, sua atuação é correta e registra a segurança de seus papéis derradeiros - lista em que se incluem Três vidas e uma só morte e Viagem ao princípio do Mundo . Este último, aliás, encerra o flerte de Marcello Mastroianni com Portugal. Curiosamente, não está na lista dos preferidos do público. Mas é um belíssimo filme de Manoel de Oliveira e que, qualquer dia, será abordado por aqui.
Abaixo um pouco da história do jornalista que acaba protegendo "jovens subversivos".

domingo, 21 de setembro de 2008

Para um amigo que não conhece Djavan

O que sobrou de nós dois não dá nem pra repartir
olhei pro céu e pensei:
Nada é mais sensato do que esquecer

Coisa de moleque

Outro desperdício de tempo e dinheiro é o desenho animado (não chega a ser uma animação) Branca de Neve - Depois do Casamento.
A produção belga está em cartaz por estas terras com uma dublagem britânica. O destaque é voz de Stephen Fry, o da música.
A idéia é interessante e está descrita no título. Contudo, perde-se numa sucessão de piadas tolas e gratuitas. Escatologias de moleque.
Se o humor também fosse britânico, seria melhor.

Muito cartaz por nada

Michael Haneke é desses diretores que confundem contundência com estardalhaço.
Curiosamente, a crítica especializada não poupa elogios às suas realizações.
Três de suas aclamadas películas são Violência Gratuita, Caché e A Professora de Piano. E esta pode ser a ordem de classificação de descartabilidade.
A Professora de Piano é um filme razoável, mas peca pela pretensão de querer fazer uma análise psicológica de Erika, a personagem do título. Haneke é superficial e previsível. O interesse pelo filme é sustentado pela história de Elfriede Jellinek e pela interpretação de Isabelle Huppert.
Haneke tem a mão pesada e insiste em certos procedimentos com que parece pretender chocar. Mas, como não são novos nem originais, seus recursos apenas formam uma porção a se esquecer do filme.
Mesmo assim, dentro de sua filmografia, o filme parecia indicar melhoras. Por isso, Caché se afigurava promissor. Principalmente porque contava com Juliette Binoche e Daniel Auteuil. Porém, mais uma vez Haneke exagerou. A fusão "thriller francês" parece ter reunido o pior de cada termo.
O pior ainda estava por vir. Haneke agora refilma o pretensioso Violência Gratuita. O filme, que já era um equívoco em 1997, agora ganha uma versão norte-americana.
É muito cartaz por nada.

domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre a Cegueira

Ensaio sobre a Cegueira, o filme, acabou se tornando uma montagem do Teatro da Vertigem filmada.
Talvez Fernando Meirelles não fosse o diretor apropriado para o filme. Talvez Kielowski ou Roman Polanski. Diretores que sabem mostrar misérias humanas sem tanto histrionismo.
O que sobra em Ensaio sobre a Cegueira, o filme, é o barulho. Provável reflexo da eloqüência de Ensaio sobre a Cegueira, o livro.
Hithcock dizia que um livro ruim é mais propício a originar um grande filme.
Ensaio sobre a Cegueira, o livro, é uma boa idéia mal executada. As idiossincrasias estílisticas de Saramago atravancam o que poderia ser uma grande obra.
Ensaio sobre a Cegueira, o filme, padece do mesmo mal. O desejo de ser cosmopolita, a confluência de estrelas, uma certa condução pretensiosa, tudo parece acarretar um filme ruidoso em que as potencialidades individuais não formam um bom conjunto. Julianne Moore é a exceção. E, repetindo em parte o papel de salvadora de Filhos da Esperança, mostra o que uma grande atriz pode fazer.
De resto, o filme é melhor do que o livro, mas não muito.
A grande questão que fica é a de saber o motivo de uma película, que se apresenta como uma "very independent production" e que apresenta um rol de estrelas internacionais como Ensaio sobre a Cegueira, precisar angariar recursos do BNDES.
O cinema brasileiro parece repetir sua literatura: aparato estatal para o desenvolvimento de (poucas) carreiras, produções elitizadas, ausência de um mercado relevante e falta de contrapartida para o gasto público.

domingo, 7 de setembro de 2008

Filmes Perdidos IX

Junk Mail é um filme norueguês que passou por aqui há mais de dez anos.
É a história de um carteiro que não faz jus a nenhuma medalha por seu esforço na entrega das correspondências. Mas, mesmo assim, engana todos e é premiado como funcionário exemplar com, se não falha a memória, um belo relógio.
Sigilo também não é o seu forte. Ele abre cartas e encomendas.
Um dia, encontra uma chave na caixa postal de uma mulher que tem seguido. Depois de hesitar, invade a casa, bisbilhota e ... salva a vida da moça.
Seus problemas apenas começaram. Uma série de infortúnios está reservada.