Domingo, 12 de Julho de 2009

Faltando um pedaço

Por aqui, o filme ganhou o título Fatal. Mais uma vez, os tradutores erraram. Embora a palavra escolhida traga consigo a ideia de inevitabilidade, destino e tragédia, o uso do adjetivo isolado não denuncia a história. Assim, quem vê a capa com Penélope Cruz, pensa em outro roteiro, não na sequência de perdas que a diretora Isabel Coixet foi buscar em Dying Animal, de Philip Roth.
Curiosamente, o título original da produção é Elegy. E esse nome tem a função de integrar o livro, a história, o filme e a literatura de Roth.
Há algum tempo já que se diz que Roth já não tem mais o mesmo vigor e, mesmo quando acerta, fala-se de uma certa monotonia. Contudo, o que parece passar despercebido pela crítica é que Roth já não faz uma literatura da maturidade: desde Pastoral Americana, pelo menos, é um escritor da perda, da deliquescência.
Isso foi notado por Coixet. Se o filme não é perfeito, é correto e eficaz. Não traz para as telas cenas importantes do livro, mas transporta bem as hesitações e confusões de Kepesh (vivido por Ben Kingsley). Além disso, realiza com segurança e sensibilidade boas sequências centradas em Consuela, como a de nudez em que a personagem posa como Maja Desnuda.
Coixet repete a pungência de Minha Vida Sem Mim, faz um filme sobre o livro, mas não o segue; completa-o.
Assim, a falta (e "falta" seria um melhor título do que "fatal") do texto simboliza a ausência da matéria. E a palavra "elegia" facilita a leitura como uma reflexão sobre a morte. Mais do que isso, dá a chave para entender o livro do Roth: uma narrativa em que as lacunas devem ser preenchidas com a vastidão da lembrança.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Estátua

Maior a planta, mais se prende ao plano,
mais os que se servem de suas sombras,
mais os que - solertes - sacam-lhe a seiva.

Seus estames lançam longe as sementes.
Então, vicejam novos arvoredos,
e a vida se faz em diversos vales.

Quando o vento varre o viço e as folhas,
a velhice vence o vigor e o verde,
os vizinhos hesitam, mas desertam.

Da árvore,resta apenas o traço:
- efígie desolada e desbastada
pagando a pena de seu prendimento.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Custos

É sempre melhor calar.
O raro e minguado júbilo
não dura a vida do berro.
O monocórdio mugido
não diminui sol nem frio,
não remoça pasto seco,
nem abrevia distâncias;
apenas nutre lamentos
na equiparência com uivos,
rodas rangentes, berrantes,
aboios de gado humano.
O vento e o tempo sabem:
- Fala de boi vale menos
do que capim esmoído.

Sábado, 2 de Maio de 2009

Formiga também canta

Em Saco de Gatos, Walnice Nogueira Galvão apresenta uma análise ideológica da Moderna Música Popular Brasileira. Tratando da produção de artistas como Vandré, Chico Buarque e Edu Lobo, ela apresenta alguns índices reiterados nas letras da produção musical da geração dos festivais.
Numa interpretação livre do ensaio, é possível tirar algumas conclusões. Em primeiro lugar, tem-se que dois aspectos são de especial constância: o cantar e o amanhã. Quando associados, a soma é muito poderosa: cantando, os artistas esquecem dos problemas e esperam o porvir redentor.
A segunda conclusão é que se trabalha muito pouco na música dos jovens dos anos 60. Normalmente universitários e nascidos com bons sobrenomes, a eles resta esperar a natural estabilização das coisas. Enquanto isso, a vida é flauta. Ou violão.
Nesse cenário, é difícil encontrar um lugar para Zé Geraldo, cantor que omite o nome de família, e se mostra mais alinhado com a música de viola do que com a música de pandeiro. Não é de estranhar, portanto, que ele possua um séquito diferenciado. Suas composições de maior sucesso atraem o gosto daqueles que não têm no passado familiar o lastro suficiente para garantir um futuro (o que gera o contentamento com o mínimo) e, que por outro lado, têm no trabalho dever e esperança. Em Senhorita, o violão está guardado para a noite, para depois do dia trabalhado. Em Cidadão, Zé Geraldo faz parecer sua a letra que Lúcio Barbosa escreveu, assim como o trabalhador sem perspectiva acredita tratar-se da própria história.
Distante do samba, Zé Geraldo já disse que suas matrizes são Bob Dylan e Tião Carreiro. Mas, como pedra que muito rolou, não manteve raiz no rústico. Ao longo da estrada, cruzou com Renato Teixeira, Tim Maia e Zeca Baleiro.
Catadô de Bromélias, seu último disco, juntou suas referências e misturou amor, religião, folclore, viola e gaita. De quebra, brincou com as músicas de protesto e fugiu à luta quando convocado por um Guevara de boteco, no velho estilo do "tá ruim, mas tá bão".
Por fim, como trabalhador, fala de desemprego, faz o caminho contrário do êxodo de décadas atrás e oferece seu trabalho. À noite, como tantos outros, quer o som do violeiro. É preciso descansar e ter esperanças depois do dia de lida, pois formiga também canta.

Sábado, 25 de Abril de 2009

A respeito de um gol e de um comercial

A publicidade brasileira sempre foi exaltada por sua criatividade. Alguns anúncios ganham prêmio em Cannes e lá vai o ufanismo colocar nossos marqueteiros entre os melhores do mundo. Normalmente o publicitário só acerta. Quando erra, o desvio é atribuído ao produto ou, mais frequentemente, ao porta-voz. Foi o que aconteceu com Gérson.
Ronaldo, ainda se recuperando, agrega à sua imagem de vitorioso a da cerveja. Os marqueteiros tentam fazer alguma relação entre meia dúzia de gols feitos pelo atacante em seu novo retorno e a bebida.
Para além da questão moral, está o respeito à inteligência do espectador/consumidor.
Atletas são como a maioria das pessoas: há os que fumam, há os que bebem, há os que não. Mas estabelecer relação entre a condição de bebedor de cerveja e o êxito ou o esforço, entre ser "brahmeiro" e ser "guerreiro", é despropositado. Afinal, quantos bebem e não têm sucesso? Quantos não bebem e são campeões?
Piadas jocosas a respeito de episódios recentes do jogador foram feitas rapidamente, associando o consumo de álcool a problemas de percepção.
Mas, então, o atacante, que entende mais de propaganda do que os outros profissionais da área, agiu. Após um gol em que ficaram nítidos seu esforço e seu suor, ele cruza os braços e mostra o símbolo da cervejaria: o número 1. Une, de uma vez só, sua imagem, a da cerveja, o número 1 e, de quebra, absolve o companheiro que havia sido descortês no domingo anterior.
A idéia não é original: Robinho já comemorou gol com o símbolo da operadora de celular que o patrocinava. Mas, na época, Robinho foi criticado. Quanto a Ronaldo, passou a mensagem de forma rápida, eficaz e sem contestação.

Domingo, 22 de Março de 2009

Equinócio

O sol esmorece,
azaleias se alvoroçam
antes do rocio.

Março

Desfeitas as nuvens,
o sol se espraia lilás
sobre as quaresmeiras.

Quaresma

Na montanha branca,
o manacá se arroxeia
como penitência.

Domingo, 15 de Março de 2009

Encontro de velhos senhores (escrito em parceria com Marcos Silva)

“Conservadora e senhorial”, assim Sérgio Buarque define a missão da intelectualidade brasileira. Ainda hoje, esses dois traços se encontram nos produtos de nossa indústria cultural, como na recente parceria entre Roberto Carlos e Caetano Veloso.
Comecemos pelo Rei. Tendo debutado como cantor de bossa nova nos bailes da Guanabara, Roberto Carlos encontrou seu espaço definitivo como ídolo da juventude que presenciou a urbanização de São Paulo – modernização que, tipicamente brasileira, não se deu sem boa dose de manutenção dos cacoetes conservadores – e se manteve por cinco décadas como referência maior do cancioneiro popular.
Com ótimo senso de oportunidade, RC soube aliar a rebeldia de modas e motores à difusão de valores distantes da ideologia da música jovem: diferentemente da atitude iconoclasta de seus colegas de língua inglesa, ele não fez apologia do “comportamento desviante”.
Em sua obra, o sexo vai dos faiscantes beijos da década de 60 à castidade dos anos 90 – medeados pelas metáforas hípicas (70) e pelas grosserias saponáceas (80). Frisando-se que, mesmo em letras pretensamente questionadoras (“Amada amante”), o que se defende é a manutenção de uma estrutura machista e patriarcal. Quanto às drogas, como vovô bem comportado, Roberto superou Clinton: fumou, mas não tragou, ao menos em público, seu irrepreensível cachimbo. No que diz respeito à atitude, seus protestos foram sempre genéricos, embora antenados aos panoramas histórico (“Astronauta”, “Amazônia”) e musical (“Todos estão surdos”, “Jesus Cristo”).
Em linhas gerais, ele conseguiu passar de Elvis a Sinatra sem perder a majestade, ou seja,sem nunca ter sido verdadeiramente imoral, ilegal ou gordo.
Embora as duas faces apontadas em “Raízes do Brasil” sejam indissociáveis, o senhorialismo se mostra mais claramente na vida e obra de Caetano Veloso: ainda que negue, Caetano incorporou à indústria cultural as mesmas práticas cordiais de velhos coronéis políticos, arrogando para si a autoridade de chancelar produtos e, até mesmo, reputações artísticas.
Por décadas, Caetano Veloso abusou da relação retroalimentar que mantinha ( e ainda mantém de certa forma) com a imprensa: fazendo parte dos chamados poetas da MPB - grupo que, tendo ocupado a lacuna deixada pela literatura, deslumbrou a mídia com a inventividade de sua produção – e constantemente chamado a opinar sobre os mais diversos assuntos, encantou-se com a possibilidade de ser cacique e não índio.
Sob a roupagem de divulgador antropofágico, atuou como abalizador de determinada produção popular.
Quando “Sozinho” fez sucesso em sua voz, o que aconteceu foi o cume de um processo de alavancagem amplamente utilizado em sua carreira, pelo qual emprestava seu prestígio e capitalizava a popularidade de artistas estranhos ao seu público convencional. Em apresentação modernizada, recuperava cânones da velha tradição de fossa e sofrimento amoroso da desprezada música brega.
Muito repetido, tal processo - que “recuperou” Odair José, Vicente Celestino, Fernando Mendes, Peninha e Wando – exige, a cada turno, uma popularidade maior como apoio, dando mostras de esgotamento.
Conveniente se mostrou, então, a dobradinha conservadorismo-senhorialismo representada pelo inevitável encontro de dois ícones, a esta altura, esvaziados.
Cheirando a oportunismo, o fato de que a união se tenha dado em torno da etiqueta Tom Jobim, nos estertores das comemorações dos 50 de 58, é algo a se notar, assim como o resultado desalentador de uma soma bem menor do que suas partes.

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Caracois

Findo o temporal
a caravana procura
novo acampamento

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

A lei e Os outros

É curioso como as referências se encaixam.
Quando assisti a Os outros, saí com a impressão de "parece com A volta do parafuso, mas não parece".
Tempos depois, ficou mais claro: Alejandro Amenábar havia se inspirado em Os Inocentes, filme baseado no livro de Henry James.
Com A Lei, de Roger Vailland, foi o contrário. As descrições, as personagens, a esperteza de Mariette, as intrigas... Tudo recendia a algo de brasileiro. Mas o que era?
Assistindo a La Loi, de Jules Dassin, ficou mais claro.
Era Jorge Amado.
É possível que Vailland tenha lido algo do escritor brasileiro. Gabriela é de 1958, e A Lei, de 1957. Pode ser algo de Zeitgeist.
Mas também é possível que os adaptadores de Jorge Amado tenham visto La Loi.

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Viagem ao Princípio do Mundo

É curioso que um filme que diga tanto sobre Portugal seja falado em francês.
Mais estranho é assistir a ele com legendas em inglês.
Uma década depois de seu lançamento, Viaqem ao Princípio do Mundo ainda é um filme pouco visto. No formato DVD, só existe importado (eis o motivo das legendas). De resto, é preciso que se aguarde alguma retrospectiva da obra de Manoel de Oliveira.
O filme é o último de Mastroianni e se encaixa bem na sequência de Três Vidas e uma Só Morte e Páginas da Revolução.
Sua personagem, o diretor de cinema Manoel, faz lembrar o professor do bergmaniano Morangos Silvestres. Mas o roteiro aos poucos vai definindo Portugal pelos contrastes: ricos e pobres, jovens e velhos, religião e cultura, folclore e história, aldeias e cidades.
Entre tais confrontos, dois pontos parecem forjar uma síntese portuguesa: a língua e a saudade. Esta parece se distinguir do nóstos ou do homesick de outros cantos. Afonso, interpretado por Jean-Yves Gautier, ao procurar a irmã do pai, apresenta um dos traços da saudade lusófona: sentir falta do que nunca houve.
Quanto à Língua Portuguesa, ela está ali: camuflada numa conversa em francês traduzida por Judite (Leonor Silveira), nos versos de Camões, nos versos sobre Pedro Macau.
E a tia (Isabel de Castro) pergunta a Afonso, insistentemente: Se és do meu sangue, por que não falas minha fala?
Tudo isso na cadência de Manoel de Oliveira.

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Humano, demasiado humano

Aline escreveu no Até aqui tudo bem algumas considerações sobre insultos com nomes de animais.
De fato, alguns deles são estranhos. Houaiss, por exemplo, diz que a acepção "disfêmica e tabuística" (quanto palavrão) de "veado" ainda não foi satisfatoriamente explicada.
A escolha de um ou outro animal para determinada qualificação reflete uma forma de pensar. Assim, na Revolução dos Bichos , os cavalos trabalham como burros, e os porcos são uns ratos.
Mas os bichos também servem aos elogios: coruja e gata são alguns casos.
Cada época escolhe a fêmea a hostilizar. Já foi a loba, donde o lupanar. Hoje, por aqui, pode ser vaca ou galinha.
Em outros lugares, isso pode ser uma grande ofensa ao bicho.
É possível que tudo não seja mais do que uma projeção de virtudes e defeitos do homem nos bichos, e não o contrário.
Talvez, no Chile ser chamado de "cachorro" deva ser um grande elogio.

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Obituário e Pranto Precoce

Os jornais anunciam a morte de Harold Pinter, escritor britânico.
A morte de um escritor é de se lamentar, pois, enquanto vive, ele faz valer a esperança de que uma frase única seja dita ou escrita. Ainda que tudo já tenha sido dito, ao escritor cabe dizer de um novo modo, numa nova combinação - às vezes esclarecedora, às vezes inquietante. Em raras ocasiões, esclarecedora e inquietante.
Confesso que meu contato com a obra de Pinter é pouco. Assisti à montagem brasileira de "O amante", e ao filme "Um jogo de vida ou morte", roteirizado por ele.
Em ambos os casos, não achei nada de extraordinário, mas a falha na leitura pode ser minha.
Ainda não sei direito se ele morreu dia 24 ou 25. No dia de natal, morreram James Brown, Miró e Chaplin. No dia 24, Vasco da Gama, Toshiro Mifune e Oscar Peterson. Ainda não sei de que lado a efeméride o deixou.
Mais triste do que a morte de Pinter, porém, é a entrevista de Manoel de Barros à revista Caros amigos deste mês. Ele, que é provavelmente o maior poeta brasileiro, revela que seu terceiro volume de memórias é seu último livro. É com certeza um presente que Manoel de Barros ainda produza. Sabe-se que o fim da produção está próximo, por motivos naturais. Mais um anúncio assim termina com certas esperanças. De um verso inquietante e esclarecedor.
Resta, então, reler, mais uma vez, seus desaforos em forma de poemas.

Sábado, 15 de Novembro de 2008

Funeral Blues - W.H.Auden

Funéreos Blues

Parem os relógios! Cortem o telefone!
Que não ladre o cão ante os sumarentos ossos!
Calem o piano e, sob mortiços tambores,
tragam o esquife, deixem seguir o cortejo.

Que, no alto, lamentem os aeroplanos,
garatujando nas nuvens: ele está morto.
Ornem com laço de fita as pombas da praça,
calcem os guardas luvas pretas de algodão.

Ele era meu norte, sul, leste, oestes;
os dias de lida, descanso dos domingos;
meio-dia, meia-noite; prosa, canção.
Pensei que não teria fim o Amor: errei.

Já dispenso as estrelas. Que se apaguem todas!
Embalem a lua, desmantelem o sol,
deixem escoar o mar, dissipem as matas.
Pois, agora, nada mais me pode servir.

texto original

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Para não dizer que não falei das cores

Ouvi certa vez, e não sei se é verdade, que, na América dos norte-americanos, é considerado negro aquele que tiver, em até seis gerações anteriores, um ancestral negro. E tal constatação faz o cidadão ser negro, antes de americano.
Por aqui, somos quase todos mestiços. Procura-se ao contrário o sinal do branco, do europeu. E, assim, há descendentes de terceira, quarta geração, que se pensam europeus antes de brasileiros.
É estranho que, ainda hoje, cor e ascendência possa ser motivo de mácula ou honra.
É estranho que, em 2008, cause furor a eleição de um presidente mestiço (ou negro para os padrões de lá) na maior democracia do mundo. Basta lembrar que, em 1909, o Brasil havia rompido esse limite.
Cinqüenta e cinco anos depois do discurso de King, o preconceito persiste.
Faz falta, então, a voz de Makeba.


Makeba, ícone do movimento pelos direitos civis, sofreu as conseqüências de sua luta.
Mas deixou alguns sucessos como "Pata Pata", que por aqui teve versão de Simonal.
Simonal, por sua vez, gravou sua homenagem ao sonhador King.

Obama, magro e alto, faz lembrar Simonal.`
Oxalá ele se lembre de King e aplique seu ideal ("I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.") em relação a todos os homens que hoje são perseguidos em seu país por causa da cor da pele ou de sua ascendência.
Já diria Simonal: "Luta negra demais é lutar pela paz".

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Emily Dickinson - Loucura

Loucura demais é o mais divino Senso
Para um olho crítico
Senso demais - a mais dura Loucura
Nisto, como em tudo,
triunfa a Maioria
Aceita e serás são
Declina e serás imediatamente perigoso
E mantido na Cadeia

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Emily Dickinson - A Dor

A Dor tem Algo de Lacuna.
Não se pode recordar
Seu início - ou se houve tempo
em que não existiu.

Não tem futuro - além de si -
Seu infinito contém
Seu passado - esclarecido para reconhecer
Novos Períodos de Dor.

Sábado, 27 de Setembro de 2008

Filmes Perdidos X

Por aqui, ganhou o nome de Páginas da Revolução. Um pouco da tradição brasileira na tradução de nomes de filmes. É sempre bom lembrar que Bus Stop se tornou Nunca fui santa - algo como "No ponto" seria mais apropriado para o filme estrelado por Marilyn Monroe.
Voltando às "Páginas"... O título original do filme de Roberto Faenza - baseado em romance de Antonio Tabucchi - é "Sostiene Pereira" e foi chamado em Portugal de ... "Afirma Pereira".
O interessante do filme é a ligação de dois italianos com Portugal: Mastroianni e Tabucchi.
O escritor, apaixonado por Fernando Pessoa, é vezeiro nas referências a Lisboa e Pessoa. Em entrevista recente, ele conta que a descoberta do poeta português se deu por acaso, que ganhou uma bolsa de estudos em Lisboa e outras coisas que o levaram até mesmo a fazer literatura em português.
Quanto a Mastroianni, embora o sítio Melhores Filmes não tenha dado uma classificação muito honrosa a Páginas da Revolução no quadro geral das produções de que participou, sua atuação é correta e registra a segurança de seus papéis derradeiros - lista em que se incluem Três vidas e uma só morte e Viagem ao princípio do Mundo . Este último, aliás, encerra o flerte de Marcello Mastroianni com Portugal. Curiosamente, não está na lista dos preferidos do público. Mas é um belíssimo filme de Manoel de Oliveira e que, qualquer dia, será abordado por aqui.
Abaixo um pouco da história do jornalista que acaba protegendo "jovens subversivos".

Domingo, 21 de Setembro de 2008

Para um amigo que não conhece Djavan

O que sobrou de nós dois não dá nem pra repartir
olhei pro céu e pensei:
Nada é mais sensato do que esquecer

Coisa de moleque

Outro desperdício de tempo e dinheiro é o desenho animado (não chega a ser uma animação) Branca de Neve - Depois do Casamento.
A produção belga está em cartaz por estas terras com uma dublagem britânica. O destaque é voz de Stephen Fry, o da música.
A idéia é interessante e está descrita no título. Contudo, perde-se numa sucessão de piadas tolas e gratuitas. Escatologias de moleque.
Se o humor também fosse britânico, seria melhor.

Muito cartaz por nada

Michael Haneke é desses diretores que confundem contundência com estardalhaço.
Curiosamente, a crítica especializada não poupa elogios às suas realizações.
Três de suas aclamadas películas são Violência Gratuita, Caché e A Professora de Piano. E esta pode ser a ordem de classificação de descartabilidade.
A Professora de Piano é um filme razoável, mas peca pela pretensão de querer fazer uma análise psicológica de Erika, a personagem do título. Haneke é superficial e previsível. O interesse pelo filme é sustentado pela história de Elfriede Jellinek e pela interpretação de Isabelle Huppert.
Haneke tem a mão pesada e insiste em certos procedimentos com que parece pretender chocar. Mas, como não são novos nem originais, seus recursos apenas formam uma porção a se esquecer do filme.
Mesmo assim, dentro de sua filmografia, o filme parecia indicar melhoras. Por isso, Caché se afigurava promissor. Principalmente porque contava com Juliette Binoche e Daniel Auteuil. Porém, mais uma vez Haneke exagerou. A fusão "thriller francês" parece ter reunido o pior de cada termo.
O pior ainda estava por vir. Haneke agora refilma o pretensioso Violência Gratuita. O filme, que já era um equívoco em 1997, agora ganha uma versão norte-americana.
É muito cartaz por nada.

Domingo, 14 de Setembro de 2008

Sobre a Cegueira

Ensaio sobre a Cegueira, o filme, acabou se tornando uma montagem do Teatro da Vertigem filmada.
Talvez Fernando Meirelles não fosse o diretor apropriado para o filme. Talvez Kielowski ou Roman Polanski. Diretores que sabem mostrar misérias humanas sem tanto histrionismo.
O que sobra em Ensaio sobre a Cegueira, o filme, é o barulho. Provável reflexo da eloqüência de Ensaio sobre a Cegueira, o livro.
Hithcock dizia que um livro ruim é mais propício a originar um grande filme.
Ensaio sobre a Cegueira, o livro, é uma boa idéia mal executada. As idiossincrasias estílisticas de Saramago atravancam o que poderia ser uma grande obra.
Ensaio sobre a Cegueira, o filme, padece do mesmo mal. O desejo de ser cosmopolita, a confluência de estrelas, uma certa condução pretensiosa, tudo parece acarretar um filme ruidoso em que as potencialidades individuais não formam um bom conjunto. Julianne Moore é a exceção. E, repetindo em parte o papel de salvadora de Filhos da Esperança, mostra o que uma grande atriz pode fazer.
De resto, o filme é melhor do que o livro, mas não muito.
A grande questão que fica é a de saber o motivo de uma película, que se apresenta como uma "very independent production" e que apresenta um rol de estrelas internacionais como Ensaio sobre a Cegueira, precisar angariar recursos do BNDES.
O cinema brasileiro parece repetir sua literatura: aparato estatal para o desenvolvimento de (poucas) carreiras, produções elitizadas, ausência de um mercado relevante e falta de contrapartida para o gasto público.

Domingo, 7 de Setembro de 2008

Filmes Perdidos IX

Junk Mail é um filme norueguês que passou por aqui há mais de dez anos.
É a história de um carteiro que não faz jus a nenhuma medalha por seu esforço na entrega das correspondências. Mas, mesmo assim, engana todos e é premiado como funcionário exemplar com, se não falha a memória, um belo relógio.
Sigilo também não é o seu forte. Ele abre cartas e encomendas.
Um dia, encontra uma chave na caixa postal de uma mulher que tem seguido. Depois de hesitar, invade a casa, bisbilhota e ... salva a vida da moça.
Seus problemas apenas começaram. Uma série de infortúnios está reservada.

Domingo, 24 de Agosto de 2008

Filmes Perdidos VIII

Polanski, Depardieu, Tornatore são alguns dos nomes que compõem Uma simples formalidade .
O filme de 94 não teve a sorte que merecia na lista de obras que perduram.
Mas merece ser visto como um belo retrato do mundo kafkiano.
Dos poucos que conheço que lembram deste filme, alguns pensam ser o mesmo dirigido por Polanski. Faria sentido. Mas surpreende mais por ser de Tornatore, o mesmo da fábula de Cinema Paradiso.

Sábado, 16 de Agosto de 2008

Para um amigo que não conhece Fernando Lobo

O que dói profundamente é
trazer uma aflição dentro do peito
separando você de mim

Filmes Perdidos VII

Tapete Vermelho é um filme recente que pouca gente viu.
Fioou pouco tempo em cartaz e em poucas salas. Em DVD, também é meio díficil de achar.
É uma bonita fábula sobre a promessa de um pai: levar o filho para assistir a um filme de Mazzaropi.
E lá vai, Quinzinho, pequeno sitiante, em busca de um cinema que exiba as peripécias de seu herói.
Com um elenco muito bom, a história se revela uma viagem ao interior paulista, com suas lendas e violas.

Domingo, 10 de Agosto de 2008

Filmes Perdidos VI

Há cinqüenta anos, Hollywood já fazia uma versão conservadora do conflito entre homem e computador.
Muito antes de Mensagem para você, o Amor eletrônico já existia. E estavam lá Spencer Tracy e Katherine Hepburn.
Coincidência ou não, Tom Hanks é o galã numa versão moderna de Desk Set .
Antes de Hanks, apenas Tracy conquistara o Oscar de melhor ator por dois anos consecutivos.
Com o nome feito, comédia romântica é para ganhar bilheteria.

Para um amigo que não conhece Almir Sater

Ando devagar porque
os caminhos mudam com o tempo

Sábado, 2 de Agosto de 2008

Para um amigo que não conhece Sueli Costa

Encouraçado nos meus agasalhos,
meu coração ateu quase acreditou
que dentro de mim mora um anjo.

Filmes perdidos V

Lançados no Brasil à mesma época, dois filmes relacionam comida e flores numa metáfora entre o corpo e o espírito ou, para quem preferir, entre o essencial e o necesário.
Em Pão E Tulipas, a história é a de uma dona de casa que, esquecida no autoposto pela família, resolve esquecê-los e realizar sonhos antigos, como uma viagem a Veneza. É um filme de Silvio Soldini e poderia ser classificado como uma comédia romântica italiana, com tudo que isso implica.

Mais árido é o filme de Ken Loach, Pão e Rosas.
O título é tomado de um movimento grevista do ínicio do século vinte, liderado por mulheres da indústria têxtil norte-americana. A história é a de Maya e Rosa, imigrantes exploradas que lutam por melhores condições de trabalho. Quem encabeça o movimento é Sam. Ele, por ser nativo, é dos menos afetados pelas conseqüências de suas lutas.

Domingo, 27 de Julho de 2008

Elos e querelas de Slimane

O segredo do grão é um filme digno de nota.
A história de Slimane (Habib Boufares), homem de 60 anos, maltratado no trabalho e que vive entre duas famílias, poderia ser apenas um retrato pitoresco e agradável de uma cultura desconhecida para tantos. Poderia ser, na mão de Ken Loach por exemplo, o relato de imigrantes marginalizados (praticamente todas as personagens são muçulmanas) e que merecem atenção das elites somente pelos "exotismos" de sua dança, de sua comida, de sua beleza.
Poderia ser, se Kiarostami contasse a história, a sutil captação das relações humanas.
É tudo isso, e muito bem alinhavado.
Slimane tem um sonho - fazer um restaurante, num barco velho, especializado em cuscuz e peixe. Mas tem problemas: o corpo cansado, a carteira vazia, a falta de instrução.
Além disso, Slimane é uma mula de carga, levando e trazendo coisas e crises de uma casa a outra. Está no meio de um turbilhão entre a primeira família e a segunda tentativa.
Vai, assim, da casa dos filhos e da ex-mulher para o hotel em que vive com a senhoria e a enteada Rym (ótimo papel de Hafsia Herzi). E, nos dois cantos, ouve a discórdia e a crítica.
Mas as duas famílias de Slimane têm muito em comum: as tradições, o desprezo dos franceses, ele.
E em torno disso, ligam-se. E, quando o que separa une, é como se não mais existisse.

Sábado, 19 de Julho de 2008

Irina Palm

É um filme interessante. O inglês britãnico parece camuflar outras dimensões da história. O humor de situações poderia ser espanhol, provavelmente Almodóvar, ou mesmo argentino. Mas as intricadas questões pessoais e familiares recendem a um certo ar de Dogma ou de cinema francês. Em paralelo, a oposição entre periferia gélida e centro deteriorado. Meio oitentista, não?
E os palimpsestos parecem ser úteis não só na busca de referências, mas também na leitura.
Num trocadilho tolo, pode-se dizer que, abaixo da superfície Na palma, está o substrato Napalm.
Em outras linhas: a história não é só a da cinqüentona, viúva, quase casta, que, por trás de um tapume, se torna o nome mais conhecido do Soho; é também a história do conflito de uma mulher com suas limitações, dos valores com os pudores, do eu contra os outros e pelos outros.
E, entre os risos e a reflexão, a platéia vai trocando a hedonista Marianne Faithfull pela resignada, mas determinada, Maggie.

Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Das etiquetas

Ouvi falar que existe gente nas universidades que estuda os textos, as frases, as palavras e suas relações sociais e psicológicas. Não sei bem quem faz isso: já me disseram que eram analistas, teóricos e lingüistas. Leigo que sou, vejo algum interesse nos usos das palavras e no ato de nomear.
Coisa interessante aconteceu quando da recente morte de Ruth Cardoso. Os jornais frisavam que ela não gostava de ser chamada de primeira-dama. Porém, qualquer que fosse o tratamento, a "realidade ontológica" (para dizer como os estudiosos) era a mesma. Os governos estadual e federal, num ato de cortesia talvez despropositado, decretaram luto oficial pela morte de uma primeira-dama, não pela de uma antropóloga.
Dizia que o ato de cortesia era despropositado porque destinado a homenagear um parente de governante. Normalmente, as homenagens são para os mandatários, não para seus afins. Esquecia-me, porém, que Ruth Cardoso participava do governo efetivamente - creio que na Comunidade Solidária -, o que justificaria a vênia.
Interessante notar que o exercício de um cargo pela esposa do presidente já havia acontecido antes, por exemplo, com Rosane Collor, que era sempre a primeira-dama.
Talvez a participação de um parente no governo levasse hoje outro nome, mas permaneceria sendo uma participação.
Outra menção reiterada nos noticiários era de que Ruth Cardoso faria parte dos anti-racistas. Autonomeação de intelectuais que se posicionaram contra as cotas universitárias.
Particularmente, não creio que o posicionamento a favor ou contra tal questão seja suficiente para determinar se alguém é ou não é racista. Porém, assumindo um rótulo, os signatários deixaram para os outros a posição contrária.
Julieta perguntaria se um nome mudaria a essência de algo. Pode não alterar a substância, mas deve mudar a embalagem.
Penso no que diriam os teóricos.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Para um amigo que não conhece Sá e Guarabyra

Minha casa não tem mais mistério:
Aquilo que a vida nos dá e nos tira
Um pouco em cada pedaço e lugar

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Das ignorãças

O plano era escrever sobre Manoel de Barros logo depois de falar de Paulo Coelho.
Caso meu único leitor tenha perdido a postagem, explico: escrevi semanas atrás um texto sobre Paulo Coelho e sua aceitação pelos leitores estrangeiros. Nem sabia desse negócio de biografia, pois não leio jornal.
A ligação com Manoel de Barros é simples. Manoel de Barros é dos poetas mais vendidos no Brasil. Li em algum canto que era o campeão brasileiro de vendagens em poesia. Mas deixemos como um dos campeões.
A questão é que, como Paulo Coelho, Manoel de Barros é praticamente ignorado pela crítica. É estranho - ou talvez natural - que alguém que faça uma poesia tão instigante, e que seja isolado dos mecanismos Estado-imprensa, não desperte a atenção dos teóricos. Talvez seus sessenta anos de produção não digam nada à Academia.
Certa vez, conversei com dois professores da USP para saber se havia algum ensaio interessante sobre o poeta, sobre essas coisas que ele escreve e ficam entre a brincadeira e a filosofia. De um, recebi um dissimulado "não me lembro"; de outro, uma resposta mais sincera: "fiz algumas leituras, mas não conheço texto crítico relevante; e acho que você não vai encontrar nada, pois ele não agrada ao pessoal de São Paulo".
Ou seja, em boa parte vigora a crítica do "não li e não gostei" tanto para Paulo Coelho quanto para Manoel de Barros.
Não há muita novidade nisso. Desprezar escritores que vendem livros é artifício que já foi usado, por exemplo, contra Érico Veríssimo e Jorge Amado.
A crítica deveria no mínimo tentar estudar o que torna esses autores populares.

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Paulistinha

No frio de junho
percebe-se quanto valem
os pêlos ausentes